terça-feira, 29 de abril de 2025

2021: Segurança Cidadã na prática


"eu voltei... será que agora é pra ficar? rs"

Estou no final de abril de 2025, e depois de uma conversa aleatória com uma pessoa que se tornou um grande amigo sobre a importância de registrar nossa vida, encontros, pensamentos, sobre o poder dos nossos diários, eu percebi que tinha parado de fazer esses textos de balanços anuais que de 2013 até 2020 viraram tradição do final final de ano.

Corri atrás desse site, comecei a ler os textos antigos e me deu vontade de escrever de novo. Afinal, esse registro, por mais que sejam apenas um reflexo curto do ano, são importantes para a memória das vivenciais que me marcaram. Correndo o risco de perder pontos importantes, vou retomar a partir do ano que parei, nesse caso, 2021.

Se 2020 foi o ano em que a política da morte se escancarou, 2021 eu aprendi como se constrói na prática uma política de segurança cidadã a partir da experiência como Secretária Adjunta de Segurança Cidadã na prefeitura de Diadema. Em 2020 fui candidata à vereadora pelo PT em São Paulo, por uma cidade antirracista e o bem viver, e segurança pública foi um dos vários pontos que dialogamos durante a campanha. Em Diadema o PT elegeu como Prefeito o companheiro José de Filippi, que já havia governado a prefeitura da cidade outras três vezes e que resolveu nomear como Secretário de Segurança Cidadã o Benedito Mariano, que é uma grande referência na área da segurança pública e que me convidou para ser sua secretária adjunta.

Eu ri quando li os últimos textos por que de alguma forma todo final de ano eu acho que o ano que passou foi o mais maluco da minha vida. E escrevendo em retrospectiva sobre 2021 é surreal pensar onde estou agora e onde passei. Mas, sem spoilers (rs), sigo sobre o ano de 2021.

Acho que esse foi o ano que eu defini o tema da segurança pública como o meu tema de vida. Desde a graduação eu pesquiso, desde o inicio na militância do movimento negro sei que esse é um tema central, mas foi em 2021, a partir da experiência em Diadema, que eu entendi que esse é o tema que eu quero me aprofundar do ponto de vista intelectual, acadêmico e profissional.

Em Diadema participei da formulação de políticas de segurança para o município, da disputa política necessária de ser feita para construir políticas de prevenção e não de repressão. Inclusive, entendi ali o quão complexo é pra esquerda que governa uma gestão enfrentar os ataques da oposição nessa área e se sobrepor ao senso comum que sempre aponta pra repressão quando o assunto é segurança.

Tive a oportunidade de coordenar a criação da Patrulha Maria da Penha na GCM da cidade e promover a articulação com as diversas secretarias da Prefeitura. Pude lecionar uma disciplina sobre racismo estrutural e segurança pública no Estágio de Qualificação Profissional da GCM, foram aulas que transformaram minha visão da segurança pública. Eu era a professora, mas com certeza eu sai de todas as aulas aprendendo mais do que imaginei ser possível a partir das provocações e debates com os guardas da cidade. Por duas semanas assumi como a primeira mulher negra, e a mais jovem, a ser Secretária de Segurança Cidadã da cidade de Diadema. Todos os desafios de como gerir uma gestão municipal, de onde conseguir orçamento, de como consolidar dados e promover articulação integrada com as diversas áreas da gestão publica foram ricos aprendizados desses quase um ano e meio de gestão.

Nesse ano ainda enfrentávamos a pandemia do Coronavírus, os trabalhadores da saúde e da segurança eram os únicos que não tinham trabalho remoto, então cada dia era um cuidado enorme para não se colocar em risco ou os mais próximos também. O Brasil alcançou números terríveis, centena de milhares de pessoas morreram, em especial por ter na época um PR que não se importava com o povo. A vacina chegou ao Brasil, iniciamos a imunização a partir dos grupos prioritários, graças ao SUS conseguimos avançar e salvar vidas. Mas, a pandemia deixou marcas para sempre, e isso a gente não tinha tanta noção na época, mas esses anos de pandemia e isolamento de alguma forma iriam moldar uma nova dinâmica de viver em sociedade, iria moldar a geração que estava se formando ali. 

No Instituto Lula seguimos com debates sobre a situação do país, com campanhas pela democracia e pela defesa do legado do Lula. Depois de muita luta, esse foi o ano em que o Presidente Lula recuperou os direitos políticos após a anulação promovida pelo STF de sua injusta condenação e a partir dai se iniciou um processo de construção coletiva para a retomara de um projeto democrático e popular para o Brasil que traria consequências concretas no ano seguinte. 

Eu voltei a treinar Kung Fu, e foi uma experiência tão incrível poder cuidar da minha saúde física e mental retomando uma arte marcial que treinava quando era adolescente. A Li Fei Lin é uma academia em Santo André, meio do caminho entre o trabalho e minha casa, que virou parte do meu refugio semanal. 

Esse também foi o ano que minha vida espiritual tomou um caminho que não esperava, e é muito doido quando você vê os caminhos que Orixá cria pra você ir tomando forma. Eu sai junto com minha família paterna do Axé Ilê Obá e depois de um jogo de búzios em que entrei com várias certezas e sai com todas as dúvidas possíveis descobri que meu irmão de santo, que já tinha cuidado de mim através de seus guias, era na verdade meu pai de Santo. E que sua casa, que tinha acabado de ser comprada, terreno de mata fechada, sem ninguém saber, era também a morada dos meus orixás e meus guias. 

Prestei o Doutorado na USP e não passei, descobri novos autores, li novos livros, participei de vários debates. Fui consolidando o objeto de pesquisa que queria fazer e que mais pra frente iria mudar.

Foi um ano de aprender a me descobrir mais, a me deixar levar, conhecer novas pessoas, curtir (com cuidado, é claro, afinal, pandemia ainda estava ali). Viajei no final do ano para o Nordeste para passear, mas também para reencontrar queridos companheiros e companheiras. Iniciamos um projeto político para 2022, construção de sonhos e lutas dessa vez com companheiras e companheiros do estado de São Paulo como um todo.

Eu com certeza deixei passar alguma coisa, mas esse foi um ano de aprendizado e de fincar ancoras em algumas certezas que moldariam minha vida adulta. Decisões tomadas ali, influenciaram onde estou agora.

E mais uma vez foi um ano que minha vida foi uma loucura, que chorei, sorri, vivi, amei, conheci novas pessoas, aprofundei relações, me distanciei de quem devia, conheci quem não imaginava. Lançamos a Magna Charta Universitatum 2020, depois de muitos debates e conversas e propostas de mudanças acolhidas. 

Foi um ano de preparação. Ansiosa para contar os anos seguintes, paro aqui com esse relato sobre 2021. Estou feliz por ter voltado a escrever, espero não demorar mais quatro anos para fazer o ano seguinte haha

Que venha 2022!





quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020: a política de morte se escancara

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." 
Carlos Drummond de Andrade


 Hoje é dia 31 de dezembro de 2020 e eu nem acredito que o ano já acabou, parece que os meses, os dias, as horas se aceleraram demais esse ano. Tudo muito rápido, muito urgente, muito grave, solidariedade, mobilização e ao mesmo tempo apatia, inércia, imobilidade. Parece contraditório escrever isso, mas nesse ultimo dia do ano essa contradição é o meu sentimento sobre esse ano. 

A sindemia do coronavírus causou cerca de 200 mil mortes no Brasil e mais de 7,6 milhões casos confirmados, isso sem contar na subnotificação que sabemos que foi enorme. O governo Bolsonaro atuou de forma extremamente irresponsável e contribuiu para que esse número até hoje se elevasse. Estamos terminando 2020 com mais de mil mortos por dia e sem previsão de inicio da vacina enquanto na maioria dos países do mundo o processo de imunização já se iniciou. 

2020 foi o ano em que a "necropolítica" se escancarou. Organização do poder para a produção da morte. No caso do Brasil o poder é simbolizado pelos desmontes e ataques do governo federal para a produção de mortes negras e da periferia, que são as maiores vitimas dessa violência crescente em nosso país, e que foram as maiores vítimas do coronavírus. E exatamente por isso foi o ano em que se escancarou a necessidade de se colocar no centro de todas as discussões as relações raciais. 

Vidas Negras Importam. Não existe Democracia sem o Combate ao Racismo. O racismo é estrutural e como tal precisa ser combatido através da transformação da estrutura social, da superação do sistema político, jurídico e econômico. Esses temas tomaram as redes e as ruas, não só no Brasil, mas no mundo, e eu espero que essa centralidade vire de fato realidade, e que o novo normal pós pandemia, tenha como prioridade esse necessária transformação.

Mas falando sobre o meu ano, tenho que ser grata. Eu realizei alguns sonhos, amei, sorri, chorei, conheci pessoas maravilhosas que espero levar pra vida, construí e representei nas urnas sonhos coletivos, publiquei meu primeiro livro, estou viva, minha família está bem.

Conheci Capitólio antes da pandemia chegar, lugar maravilhoso que espero voltar. Ocupamos as ruas em um 8 de março incrível que mesmo debaixo da chuva não impediu as mulheres de lutarem. Fiquei em casa. Junto de centenas de pessoas de São Paulo construímos e apresentamos um projeto Por uma cidade Antirracista e o Bem Viver em São Paulo que teve 11.451 votos em nossa campanha pra vereadora pelo PT. A maior parte da pré-campanha foi on-line, mas a campanha foi nas ruas, dialogando com as pessoas, com distanciamento e cuidado, mas com esperança de que juntos nós podemos transformar nossa cidade. As pessoas, movimentos, inciativas e diálogos que fizemos nesse processo foram incríveis e me marcaram pra vida inteira. Estou mais convicta de que o PT é um instrumento de transformação social e mais ainda de que a nossa organização social e popular é fundamental.

O mestrado que terminei ano passado foi publicado em livro pela Editora Contracorrente, Código Oculto ocupou as prateleiras das livrarias esse ano com uma dissertação sobre política criminal, racismo estrutural e obstáculos à cidadania da população negra no Brasil que veio acompanhada de uma apresentação do Lula, prefácio do Silvio Almeida, contracapa da Matilde Ribeiro e posfácio do Humberto Fabretti. Todos grandes referências e inspirações para mim. Esse livro é resultado de sonhos coletivos, e é só o inicio de uma carreira acadêmica que busca o link da teoria e prática, pra transformação da estrutura social.

Hoje não tenho muito tempo pra escrever mais, ainda tenho que arrumar algumas coisas pra essa minha virada, então tem muita coisa que deixei de escrever sobre esse ano, mas não podia deixar de vir aqui pra publicar esse já tradicional texto. 

Eu desejo pra 2021 saúde coletiva, física, mental, espiritual, pública, gratuita e de qualidade para todes. Por que se tem uma coisa que  o mundo percebeu esse ano é que sem saúde coletiva, não vamos pra lugar nenhum. 

Que venha o ano novo e essa nossa possibilidade de se reinventar e iniciar um novo começo, novas histórias, novas revoluções. Que venha a vacina e com ela os encontros presenciais, as aglomerações, a luta, mas também o afeto. 

Muito obrigada 2020, que a gente absorva os ensinamentos e se fortaleça com os recados dados.

Vem com tudo 2021, vem vacina, vem novas experiências, lutas e esperança.

Feliz Ano Novo. Axé!





terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2019: Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." 
Carlos Drummond de Andrade


"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro": essa frase nunca fez muito sentido pra mim, até o ano passado chegar na minha vida e junto com ele um câncer de ovário que me fez ficar cerca de 7 meses em casa, entre o pós operatório e as sessões de quimioterapia. Em fevereiro de 2019 eu tive alta da quimioterapia e estou desde então bem, curada, tendo apenas que fazer alguns exames periódicos para acompanhar. Esse ano eu não morro, e nem nesse que virá, estou firme e forte, renovada e preparada pras belas surpresas que 2020 me trará.

Esse ano de 2019 foi de descobertas, de inicio de uma nova fase da minha vida. Um ano em que a minha saúde, todas elas, física, mental e espiritual foram prioridade. Que a construção coletiva passou a dar forma num projeto lindo pra cidade de São Paulo pra 2020. Que mais sonhos foram realizados.

Esse ano viajei 6 vezes para fora do país, fui para Canadá e pela primeira vez vi neve na minha vida e pude brincar num gelo de -23º (haha). Fui também para a Itália numa viagem à trabalho, mas que aproveitei para passear com uma pessoa muito querida e descobrir um brilho especial que tem esse país. Retornei para o Canadá em um curso sobre Direitos Humanos e Genocídio que me ajudou muito para a formulação do meu mestrado, conheci a Finlândia para participar de um congresso da ESU para discutir com os líderes estudantis da Europa sobre a Magna Charta Universitatum 2020 e logo em seguida voltei para o Canadá para o Seminário Anual da Magna Charta Universitatum. E em novembro realizei um sonho e finalmente viajei para o continente Africano, fui para Durban na África do Sul participar do Congresso da União de Cidades e Governos Locais, onde fui noemada embaixadora do projeto Global Peace, que visa a construção de propostas baseadas nos objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU a partir de diálogos entre jovens e lideres locais e globais. 

No Instituto Lula fizemos uma série de debates e lutas, e depois de 580 dias de luta conseguimos a liberdade de Lula de sua prisão política. Agora seguimos lutando para garantir a anulação de todo o processo e o retorno dos direitos políticos de Lula. O governo Bolsonaro, nesse primeiro ano, mostrou a que veio: destruição de direitos historicamente conquistados, retrocesso e violência. Por isso a liberdade de Lula e a organização dos movimentos sociais e partidos de esquerda, em especial o Partido dos Trabalhadores, é essencial para a construção de alternativas para  essa onda de retirada de direitos não só a nível nacional, mas no estado e na cidade de São Paulo também.

2019 foi ano de Congresso do Partido dos Trabalhadores, foi ano de reeleger nossa presidenta Gleisi na direção nacional, o Marinho na estadual e na municipal eleger o Laércio, espaço em que fui indicada e com muito orgulho passo a compor a direção executiva como Secretária de Assuntos Institucionais. O Partido das Trabalhadoras segue firme, fortalecido e preparado para os desafios que esse ano novo nos trará.

Pensando na necessidade de construção de alternativas, de um projeto de cidade que valorize a vida, a diversidade, a nossa cultura ancestral, em contraponto a essa política de morte que está sendo implementada iniciamos um projeto coletivo para 2020. Estamos construindo caminhos para realizar a cidade de nossos sonhos e lutas e nesse ano que vem chegando temos o desafio de conquistar centenas de milhares de corações e mentes para nosso projeto. O fortalecimento da democracia, a defesa de uma educação de qualidade, a construção de uma sociedade sem desigualdades, feminista, antirracista, a construção de um sistema de segurança pública cidadã, cultura, saúde, tudo isso e mais, são temas que discutimos, lutamos e construímos nesse ano de 2019, para fortalecermos e multiplicarmos em 2020.

Na área acadêmica mais sonhos se tornaram realidades, nesse ano eu me tornei mestra em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, também foi o ano em que dei minha primeira aula na Faculdade de Direito do Mackenzie sobre Literatura e Direito comentando o romance Orgulho e Preconceito, e também foi o ano da minha primeira banca de TCC como avaliadora. Todos esses momentos foram realizações de sonhos que só foram possíveis graças aos queridos professores e professoras do Mack que sempre me incentivam, principalmente meu orientador Silvio Almeida, um grande teórico sobre racismo estrutural que está agora a caminho da Duke University como professor convidado.

Em 2019 eu amei, sorri, chorei, fiz novas amizades que espero levar pra vida toda, conheci novos lugares, venci medos, realizei sonhos, superei desafios e iniciei um grande desafio, me fortaleci espiritualmente, constatei mais ainda o valor e a força do trabalho coletivo, lutei, me fortaleci e eu não vejo a hora de chegar esse ano novo que promete ser um ano ainda mais incrível com mais sonhos para ser realizados.

Perceberam que esse ano foi cheio de realizações de sonhos e descobertas neh? 2020 com certeza será ainda mais especial.

Muito obrigada 2019  por todo aprendizado. Vem com tudo 2020 ! 

Feliz Ano Novo ! Axé




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2018: sobre autocuidado e liberdade para Lula


"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." 
Carlos Drummond de Andrade

Cá estou eu sentada na minha sala, nessa última segunda feira do ano com minha mãe, tio e avó esperando a comida ficar pronta depois de ter passado o dia acertando os detalhes pra ceia da virada que esse ano vai ser em casa. 2018 foi um ano difícil pra mim, um ano em que eu aprendi na dor que o nosso corpo fala e a gente tem que ouvir, que nossa saúde é prioridade a qualquer  coisa. Foi um ano de dores, derrotas, mas também de vitórias, cooperação internacional e muita luta.

Iniciamos o ano ocupando as ruas em defesa da democracia, contra o golpe que vivemos no país, e em especial em defesa de Lula, que estava sendo perseguido pelo Poder Judiciário por que 2018 foi um ano de eleição e ele não podia ser candidato, por que sendo ganharia a eleição e o projeto democrático e popular voltaria a ser implementado no Brasil.

Dia 7 de abril Lula foi preso nos braços no povo após três dias intensos de ocupação no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, lugar onde a vida politica de Lula se iniciou, e onde milhares de pessoas resistiram. Hoje lá em Curitiba, na sede da PF, a vigília Lula Livre no Acampamento Marisa Letícia resiste por mais de 8 meses: não sairemos de lá enquanto Lula não for libertado.

Na semana em que Lula foi preso eu, que estava com a barriga inchada a um tempo, fui ao hospital e depois de alguns exames e consultas com ginecologistas eu descobri que estava com um tumor no ovário e precisaria fazer cirurgia. A cirurgia foi no final de junho, o tumor retirado estava com 20cm. Um mês após a cirurgia com o resultado da biopsia descobri que o tumor era maligno e que teria que fazer quimioterapia.

A gente nunca espera se descobrir com câncer aos 24 anos, é muito difícil processar e acho que até agora não consegui entender direito o que foi esse processo todo. Fiz quatro ciclos de quimioterapia de cinco dias com intervalo de 21 dias. Foram 20 sessões de quimio em quatro meses de tratamento. A última sessão foi semana passada e mês que vem provavelmente terei minha alta oficial. Estou feliz por estar bem, meio fraca, mas viva. O tratamento foi difícil, tema para outros textos e talvez vídeos. Agradeço aos Deuses, Orixás e todos os meus guias que me protegeram e me deram força para passar por todas as sessões e ficar bem.

Mas o ano me trouxe surpresas alegres também. No dia da minha cirurgia eu recebi um convite para participar de um grupo de trabalho responsável por atualizar a Magna Charta Universitatum, documento que fala sobre princípios e valores das universidades escrito 30 anos atrás por 5 reitores de universidades europeias. Fizemos uma reunião presencial em setembro na Universidade de Salamanca na Espanha e ano que vem faremos novas conversas para avançar na produção desse documento. Sou a única brasileira e estudante desse grupo e estou muito feliz em fazer parte desse projeto.

2018 foi ano de eleição, o PT apresentou a candidatura de Lula que foi impedida pelo TSE e acabou sendo substituída pelo Haddad que rodou o Brasil defendendo o nosso projeto, chegou ao segundo turno contra Bolsonaro, mas perdeu as eleições graças a uma serie de fake news e uma campanha de criminalização ao PT e ao Lula. Mesmo com o resultado da eleição creio que Haddad e o PT saiu vitorioso dessa campanha, tivemos mais de 47 milhões de votos e isso deixou claro que o PT ainda é o principal partido de esquerda do país, o que tem o maior lastro social e o que tem o desafio de construir respostas para os problemas sociais colocados e de retomar a nossa base social perdida e voltar a liderar o país com nosso projeto democrático e popular atualizado para as demandas atuais do país. Espero que durante o governo Bolsonaro a gente tenha capacidade de mobilizar a população para enfrentar a onda de retrocessos que virá.

2018 foi um ano de lutas, de campanha pela liberdade de Lula, de congressos, de viagens, de conversas, mas principalmente foi um ano em que eu entendi a importância do autocuidado, da saúde física, mental e espiritual. Espero aprender com tudo o que passei, espero me fortalecer com as fraquezas que tive, espero estreitar mais os laços que foram feitos durante esse período difícil.

Termino o ano agradecendo a vida, a força e as fraquezas e principalmente o amor, amor de mãe que me acompanhou em todos as consultas e momentos mais difíceis, amor de companheiro que me fez ir pro hospital e que ficou comigo durante todo o tratamento, as amizades novas que fiz e as que cultivei por mais esse ano. O amor é um sentimento muito poderoso e se tem uma coisa que me fez ficar de pé e enfrentar todo esse ano foi o amor.

Que 2019 venha com mais maturidade, saúde, com força pras lutas que iremos travar, com Lula Livre.

Tchau 2018. Feliz Ano Novo ! Axé !



domingo, 31 de dezembro de 2017

2017: descobrindo a mim e o mundo





"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." Carlos Drummond de Andrade


Já virou tradição pra mim, todo último dia do ano escrever uma espécie de retrospectiva minha, com tudo que vivi nos doze meses do ano que passou, e a cada ano eu tenho a impressão que foi o ano mais louco da minha vida e a cada ano eu descubro que posso me surpreender mais e mais. 2017 foi um ano de descobertas, tanto sobre mim mesma, quanto de novos países, estados, companheiros, histórias, comidas, bebidas e muito mais. 

Os seis primeiros meses do ano foram os últimos da minha gestão da UNE. Ter a oportunidade de representar o coletivo PARATOD@S na vice presidência da União Nacional dos Estudantes foi a experiência mais mágica da minha vida. O movimento estudantil nesses últimos anos se mostrou o movimento social com uma grande capacidade de mobilização e de organização de jovens na luta contra o golpe e contra os retrocessos, mas se mostrou também um movimento que por ser dirigido por jovens, sempre se reinventa e a partir disso reinventa os movimentos de esquerda como um todo. Ocupar as escolas e universidade, viajar e conhecer cada cantinho desse país, ajudar na organização dos militantes da PARATODXS de norte a sul do Brasil, os congressos, seminários, encontros, manifestações, ocupações, foram todas experiências em que aprendi coisas que levarei para a vida toda. Obrigada União Nacional dos Estudantes e principalmente obrigada a juventude que constrói um novo Brasil pela confiança em me delegar essa tarefa. Nesse ano me despeço só movimento estudantil, mas com a certeza que levarei comigo por toda a vida o que aprendi, vivi e construi todos esses anos.

Na militância do Partido dos Trabalhadores esse foi um ano de muitos desafios, a luta contra o golpe nos impôs uma necessidade de se reinventar que o PT vem aos poucos implementando. Nesse ano elegemos a primeira mulher à presidência nacional do partido, a Gleisi que vem surpreendendo a todos com uma grande gestão, foi ano também de renovação dos Setoriais e fiquei feliz ao perceber a quantidade de jovens que foram eleitas para dirigir as secretarias setoriais, que tem como principal tarefa a articulação dos movimentos sociais em conjunto com o partido. A defesa do nosso legado, que vem sendo duramente atacado pela mídia golpista e por um judiciário tomado pelos interesses da classe dominante que não suportam as transformações que ocorreram nos últimos anos dos governos PT. Por isso a defesa de Lula, nossa principal liderança, é prioridade do partido e nossa luta pela eleição de Lula novamente à Presidência da República, para que o projeto democrático e popular seja novamente implementado e a gente consiga continuar transformando a vida da classe trabalhadora do nosso país. Espero daqui a um ano estar escrevendo que estou a caminho de Brasília para a posse do maior presidente que o Brasil já teve.

A Juventude do PT, que está em período congressual, tem um enorme desafio nesse processo como um todo, pois é da juventude, junto com os movimentos sociais, que virá a renovação tanto programática quanto organizativa que tanto precisamos para estarmos novamente ligados à realidade do povo brasileiro e as necessidades da classe trabalhadora. Como tive a oportunidade de rodar o país com essa juventude, eu tenho certeza que estamos a altura de nossos desafios.

2017 foi ano de um reconhecimento que eu jamais imaginaria receber, e de uma tarefa que me foi delegada que todos os dias eu me esforço para pensar a melhor forma de cumpri-la, em julho desse ano fui convidada para compor a diretoria do Instituto Lula, no qual eu já havia trabalhado na Iniciativa África até o ano passado, e que agora voltei fazendo parte da diretoria, tendo como responsabilidade também dirigir os trabalhos dessa iniciativa em que trabalhei com o Celso Marcondes. O Instituto tem dentro de suas responsabilidades a de preservar e propagado legado do presidente Lula, que é o de ter tirado milhões de pessoas da miséria, ter incluído a juventude nas universidades, ter levado água e luz aonde não tinha, ter construído um novo Brasil e transformado a vida de milhares de brasileiros, inclusive a minha, e por isso para mim é um ine só orgulho fazer parte dessa diretoria ao lado de dirigentes históricos do movimento sindical e de mulheres pelo triênio de 2017/2020. Sou a mais jovem diretora da história do Instituto e isso aumenta o desafio e a responsabilidade, mas me enche de energia e vontade de tocar essa tarefa.

Nesse ano meu sonho de ser professora universitária tem tomado forma, entrei para o mestrado no Mackenzie e a cada aula, a livro lido, eu tenho tido a certeza de que a carreira acadêmica e eu ainda teremos muita história juntas hahaha 

Além das viagens de militância, esse ano tive a oportunidade de viajar para outros países, só que a passeio, e foi uma experiência transformadora. Foram 15 dias viajando pela França, Itália, Servia e Grécia, cada país varias historias, conversas, risadas, emoções, amizades, surpresas, deixei um pedacinho de mim em casa lugar que passei e levei comigo também um pedacinho de cada lugar que conheci. Eu não tenho nem palavras pra explicar o que essa viagem significou para mim, o quanto ela me fez me conhecer mais, o quanto aprendi sobre mim e sobre as minhas relações pessoais e até espirituais. Farei viagens como está sempre, para vários lugares, centenas de países, milhares de culturas e lugares para serem conhecidos e desbravados por essa aventureira filha do vento e das florestas. Acho que nem todas as palavras do mundo conseguiriam exprimir o que esse ano significou para mim, e o quanto ele me transformou. 

Em 2017 fiz novas amizades que levarei para a vida toda, fortaleci amizades mais antigas. Corri de bomba em manifestações, participei de varias mesas de debates (inclusive fora do país na Espanha), fui em congressos/encontros/seminários todos acompanhadas de meus companheiros e companheiras e sonhos e lutas, sempre visando essa nossa utopia de construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Amei, chorei, sorri, viajei, cresci, me fortaleci, entrei pro mestrado, ganhei companheiras e companheiros e luta, conheci mais um pouquinho do Brasil e do mundo, dancei, pulei, aprendi mais ainda a desapegar das coisas, e de aproveitar mais o que tá ao meu redor, conheci o Quilombo dos Palmares e a morada dos deuses da Grécia. Vivi, sobrevivi, lutei e me fortaleci mais ainda para essa eterna luta, em busca dessa nossa utopia, de viver em busca dos sonhos, de sonhar e transformá-los em realidade, nessa nossa eterna luta pela construções de catarses.

Muita obrigada 2017 por todo o aprendizado.

Vem com tudo 2018, vem viagens, congressos, vem Lula presidente de novo com a força do povo, vem lutas, sorrisos, amores, amizades e felicidades :)

Feliz Ano Novo. Axé ! 











sábado, 31 de dezembro de 2016

2016: Lutar, Ocupar, Resistir !


"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." Carlos Drummond de Andrade


Nos últimos anos eu adquiri a "tradição" de fazer um texto sobre como foram os últimos 12 meses que passaram, pois assim eu consigo agradecer e ao mesmo tempo ter uma noção de tudo o que eu fiz durante o ano inteiro. E a cada ano que passa eu tenho a impressão que tinha acabado de passar pelo ano mais louco, mais improvável, mais intenso da minha vida e esse ano de 2016 se supera nesse quesito hahaha Dado isto, uma retrospectiva desse ano com certeza não será fiel ao todo, pois é impossível escrever em um texto tudo o que eu passei, mas vamos lá.

O ano já começou a loucura da luta contra o aumento da passagem em São Paulo, do processo de Impeachment da presidenta Dilma que tinha acabado de ser aceito pelo Cunha, a gestão da UNE e suas intensas agendas, os diversos atos, o trabalho e no meio disso tudo o meu último semestre na Faculdade de Direito do Mackenzie (e junto com ele o TCC, OAB e as provas finais), ou seja, muita luta, muita resistência e muita disciplina pra conseguir fazer isso tudo.

Olhando pra trás e pensando em tudo o que passamos nesse ano, eu tendo a acreditar que realmente tudo é possível quando se tem determinação, por que por mais que politicamente pareça que o ano esteja acabando da pior maneira possível: com Trump, Temer, Alkimin e Dória, com a PEC sendo aprovada, e o roteiro do golpe seguindo com sucesso, os ataques ao Lula e ao PT, por outro lado acompanhar esses diversos coletivos que vem surgindo, ver milhares de jovens ocupar as ruas em defesa da Democracia, ver as mulheres derrubarem o Cunha depois de muita mobilização social, participar da maior mobilização da história do movimento estudantil com milhares de escolas e universidades ocupadas, saber que tenho ao meu lado companheiras e companheiros que não fogem da luta,  me dão força pra acreditar que toda crise nada mais é do que uma oportunidade para transformar, se fortalecer e vencer.

Em junho de 2016 eu me formei bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com 10 no TCC e já aprovada na Ordem dos Advogados do Brasil. Esses cinco anos que passaram tão rápido, que transformaram minha vida de tal forma, que me causaram uma verdadeira Catarse, foram sem sombra de dúvidas os mais importantes da minha vida, e todo o aprendizado e as amizades que carrego de lá terão espaço em minha vida e meu coração por toda a vida. Meu orientador, meus professores, os funcionários, minha sala, minhas amigas e amigos, todos e todas que de alguma forma cruzaram esses cinco anos foram essenciais para essa reviravolta que passei. Agora sou advogada, mas se tem uma certeza na carreira que seguirei é a de professora, então em breve esterei de volta para a universidade no meu mestrado, doutorado, pós doc e até quem sabe outra graduação. Ter a minha mãe ao meu lado em todos esses momentos, da colação de grau à formatura, e até na entrega da carteira da OAB foi essencial, pois é por ela e com ela que eu passei por isso tudo, que nós tivemos essas vitórias e que com certeza teremos outras daqui pra frente.

O meu TCC foi sobre Segurança Pública e  o Genocídio da Juventude Negra no Brasil, e estudar esse tema com tanta intensidade, me fez perceber que não existe a possibilidade de qualquer transformação real sem se considerar o histórico de violência e segregação da população negra, e isso quer dizer que sem combater o Racismo não há democracia, não há combate real ao capitalismo e em consequência, não há a construção de uma sociedade socialista, democrática e popular.

Mesmo tendo me formado continuo no movimento estudantil pois minha tarefa como vice presidenta da UNE segue até junho de 2017, e com isso, pude nesse ano organizar e participar de momentos históricos com os estudantes, seja na luta contra o golpe e em defesa da democracia, ou nos nosso eventos que a cada edição cresce e se renova com a participação de milhares de estudantes do país inteiro. Os encontros setoriais da UNE foram deslocados para o ano não congressual e isso fez com que nós pudessemos dar prioridade para o Encontro de Mulheres Estudantes (EME), o Encontro de Estudantes Negrxs (ENUNE) e o Encontro LGBT da UNE, que reunirão milhares de estudantes do Brasil inteiro, em Niterói, Salvador e São Paulo para construção de um movimento estudantil livre do racismo, do machismo e da lgbtfobia.

A gestão da UNE também me proporcionou a realização de um sonho esse ano, de viajar para fora do país, pois esse ano tive a oportunidade de representar os estudantes brasileiros no Global Students Voice na Noruega e no Students Solidarity na Russia. Dois seminários internacionais com líderes estudantis do mundo inteiro que mudaram completamente a minha visão sobre o movimento estudantil e a importância da luta por uma educação de qualidade e gratuita para todas e todos. Percebi que a juventude e os estudantes falam a mesma língua em vários países do mundo e mesmo com realidades diversas é gratificante ver a nossa luta refletida em outras, isso nos trás uma ideia de movimento global, de voz global dos estudantes, que renova e fortalece nossas lutas e forças.

No ano de 2016 eu finalmente entrei no Axé Ile Obá como abiã do axé, me tornei filha da Yalorixá Paula de Iansã e é inexplicável o quanto isso mudou a minha vida, o quanto diariamente me sinto mais fortalecida e o quanto eu estou feliz e honrada por estar ao lado de irmãs e irmãos e da minha ancestralidade que passa da quarta geração nesse Ilê. Sou filha de Iansã e Oxossi, tenho a força das tempestades e a profundezas das raízes das florestas e não vejo outro lugar onde meu desenvolvimento espiritual se encontraria como lá.

Esse ano também tive a certeza de estar ao lado das pessoas certas em minha militância, a construção de um novo Brasil não é fácil e não se acaba nunca, pois a cada vitória um novo desafio é apresentado, e seja no meu coletivo de base, no Nós PT, na PARATODXS, na JCNB, na CONEN, ou no Partido dos Trabalhadores, nesse ano de crise, de grandes ataques, de autocrítica necessária e de renovação precisa, a cada processo que participei, cada ato, cada seminário, congresso, reuniões intermináveis, ações diretas, ocupações ou simples conversas com companheiras e companheiros, com dirigentes e grandes referências, eu tive a certeza de que estou ao lado de quem não irá descansar até viver em uma sociedade livre de todo e qualquer tipo de opressão.

Em 2016 ocorreu um golpe no Brasil, a primeira mulher eleita Presidenta da República sofreu um impeachment sem crime de responsabilidade, por erros nossos, mas também por nossos acertos. Os 13 anos de governos petistas, do Lula e Dilma, foram demais para uma elite que é historicamente privilegiada em nosso país, que não suporta ver o filho da empregada se formar em medicina, dividir o espaço no avião, ver o crescente aumento do salário mínimo, os mais de 40 milhões que saíram da miséria e muito mais, essa elite não suporta essas transformações mínimas e se unificaram para dar um golpe midiático, jurídico e político, que tem como principal representação uma agenda de retrocessos a direitos conquistados. Mas a nossa falta de capacidade de dar respostas à altura do golpe que sofremos se deve aos nossos erros, à burocratização do partido, à falta de disputa ideológica, ao pouco trabalho de base, dentre outras coisas, que eu espero que nesse processo congressual sejam debatidas, reformuladas e transformadas, para que a partir dessa crise a gente (Partido dos Trabalhadores) se renove e se fortaleça, e eu estou cada vez mais certa de que a juventude tem um papel essencial nessa transformação.

Enfim, 2016 foi um ano de finais de inícios de ciclos, de muita luta e resistência, de aprendizado, formação e de entender a importância da formulação. Amei, sorri, chorei, viajei, lutei, me fortaleci, cresci, me formei, conheci novas pessoas, descobri o mundo, dancei, pulei, fiz novas amizades, fortaleci amizades velhas, aprendi a desapegar das coisas e pessoas, fui ao mar, conheci paraísos, ocupei, resisti e descobri, e percebi que uma das minhas tarefas pra vida é, assim como fiz no Mackenzie, ajudar a realizar uma Catarse no mundo inteiro haha

Adeus 2016, obrigada por todo aprendizado.

Vem com tudo 2017, que depois desse ano nada vai surpreender a gente  (e isso não é um desafio)
hahaha

Feliz Ano Novo ! Axé !


Tamires G. Sampaio















terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Isso aqui é uma guerra, senhora"




Ouvi isso de um guarda do metro República na semana passada durante a repressão que rolava no centro diante do primeiro ato. Fiquei pensando nisso por um tempo e hoje essa frase passou a ter todo o sentido: realmente estamos em guerra.

Estávamos no meio da Praça do Ciclista quando as primeira bomba foi jogada, e ao contrário do que a mídia notícia, não estava acontecendo nada além da manifestação pacífica contra o aumento da tarifa. Aparentemente palavras de ordem gritadas e tocadas por militantes virou motivo para uma verdadeira carnificina.

Quando a primeira bomba foi jogada, estávamos no meio da Praça dos Ciclistas, onde ocorreu a concentração do ato e de onde ele sequer conseguiu sair. De acordo com o que nos avisavam pelo celular, estávamos cercados por todos os lados, a Consolação estava lotada de PM, na Paulista tinha parede de militares, a rebouças também estava bloqueada, ou seja, não tinha pra onde correr.

As bombas vinham da Consolação e no outro sentido uma parede de policiais do choque nos aguardava e durante isso o ambiante era tomado por uma fumaça branca, tóxica, que fazia seu olho e todo o rosto arder, praticamente acabando com a possibilidade de enxergar para onde estava indo e causando uma enorme dificuldade de respirar.

Segurei a mão de um amigo e juntos corremos para um lado tentando fugir das bombas, quase sem enxergar nada eu praticamente andava sem saber pra onde enquanto as bombas eram jogadas em nossa direção. Por um momento tivemos um vislumbre da parede de PMs que travava a Paulista tendo uma brecha e quando corremos para lá nos deparamos com os policiais militares atacando os manifestantes que estavam fugindo das bombas com cacetetes. Essa cena me fez perceber o quão sádica é a policia militar. Recuamos para o outro lado e conseguimos passar por eles sem ser pegos, eu nunca senti tanto medo de ser pega quanto naquele momento.

Saímos correndo pelas ruas da Paulista até chegar em um local em que a gente pudesse respirar, era um misto de cansaço, com falta de ar, com dor nos olhos e raiva por se perceber impotente diante de uma situação como aquela. Enquanto andávamos pelas ruas, nos deparamos com alguns trabalhadores saindo de seus serviços e passando mal pelo cheiro do gás que mesmo de longe incomodava.

Hoje o poema do Carlos Drummond de Andrade passou a ter um significado diferente pra mim, "de mãos dadas" agora significa estar em segurança por que se não fosse a companhia de um amigo hoje durante a repressão eu com certeza seria uma das dezenas de pessoas feridas nesse ato. A sensação de não conseguir respirar, de não enxergar o que está acontecendo, somado com o barulho das bombas e dos gritos da galera foi terrivel, mas olhar para o lado e ver as pessoas se ajudando, ver que eu mesma estava ao lado de um companheiro de lutas, me dava forças para continuar nossa caminhada.

Não há repressão policial que vai nos tirar das ruas, que vai nos impedir de lutar não só contra o aumento da passagem, mas lutar por uma sociedade mais igualitária e justa, livre da repressão policial que todos os dias assassinam jovens negros nas periferias desse país, e que hoje nos mostrou que não medem esforços para reprimir a população.

Quinta feira tem mais ato, e desas vez em vários lugares, não vamos nos render, se a tarifa não baixar continuaremos ocupando as ruas, e quanto mais repressão rolar para nos impedir de lutar por nossos direitos, mais manifestações faremos.

Não aceitaremos a  criminalização dos movimentos sociais que ocupam as ruas e lutam pela revogação do aumento da tarifa. Junho de 2013 já provou que não hpa repressão policial capaz de conter as massas, parece que Alckmin não entendeu nada disso. Espero profundamente que o Prefeito Haddad se pronuncie repudiando toda essa violência e pare a repressão de Geraldo Alckmin, ou será conivente com a tragédia.

Seguiremos ocupando as ruas, por que nossos sonhos e nossas utopias não há bomba que consiga acabar.

Vem pra rua vem  !


Tamires Sampaio