segunda-feira, 23 de maio de 2011

Soneto do amor total



Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



- Vinicius de Morais

Procura-se um amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.



- Vinicius de Morais

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Poema em Linha Reta



    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,
    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?
    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
    - Álvaro de Campos

sábado, 7 de maio de 2011

Hypnotize !




Hipnotizar

Por que você não pergunta para as crianças na Praça da Paz Celestial?
É por causa da moda que eles estavam lá?
Eles disfarçam, hipnotizam
A televisão fez você comprar isso

Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha...

Ela tem medo que eu a leve embora de lá
Deixou seus sonhos e seu país sem ninguém lá
Hipnotize as mentes simples
A propaganda nos deixa cegos

Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha garota
Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha garota
Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha garota
Eu estou apenas sentado no meu carro e esperando pela minha garota.

- System of a Down

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Filosofia Negra

Continuação do post "Grito Sufocado"...
("Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra" - Bob Marley)


Professor de Filosofia: "Bom começo...mas como bom aristotélico, qual a causa deste evento??? O que faz essas crianças não se identificarem ou se identificarem de maneira negativa??" (Reno)

Aluna: "Eu quebrei a cabeça pra responder essa pergunta e não me liguei que a resposta estava bem debaixo do meu nariz, na verdade meu nariz fazia parte dela: Eu.

Eu fui uma criança negra que queria bonecas negras assim como eu, para poder chama-las de filhas, filhas parecidas comigo. Com minha cor, minhas características. Mas sempre que ia nos shoppings, nas lojas de brinquedos só via bonecas brancas, loiras, de cabelo liso. Não tinha uma Barbie negra, uma boneca bebê negra, ou qualquer tipo, então só me restava levar a branquinha mesmo.
Quando brincava com ela, e a chamava de filha ou quando brincava com a Barbie e dizia que era ela, ficava com uma mistura de raiva por não ser igual a mim e confusa por mesmo assim dizer que sou igual. 

Lembrar disso me faz lhe dizer que essas crianças não se identificam por que em todo lugar que olham, ou a maioria das bonecas(os) que brincam são diferente delas, são brancas, são loiras, tem olhos claros, cabelos lisos. Isso acaba confundindo a criança, pois ela precisa de um referencial para crescer e seguir ele. E se ela brinca com uma Barbie e diz ser ela na brincadeira ela vai acabar crescendo com esse pensamento, e inconscientemente vai acabar adotando as características dessa boneca. Quando crescer vai alisar o cabelo, tingi-lo, vai fazer dieta pra emagrecer... Enfim vai se embranquecendo sem nem perceber, ai essa mesma criança assiste um filme em que o personagem principal é uma menina branca, o mocinho também é branco, e o único negro que aparece ou é bandido ou empregado. Misturando o que ela vê nos filmes com o que acontece por causa das bonecas, a criança deturpa completamente seus pensamentos e passa a enxergar o negro (que se parece com ela, que é ela, mas que ela inconscientemente ou não tenta mudar depois) como o vilão da tv, o bandido, o empregado, a ralé. E a boneca branca, sua filhinha, sua "eu", como a pessoa boa, bonita e legal.
Não é que elas se enxergam de forma negativa, acredito que o que acontece é que com toda essa representação negativa do negro que elas veem, e a identificação inevitável que elas acabam tendo com os brancos (mesmo tendo a consciência de que são negras) acaba fazendo com que eles respondam o que respondeu." (Tamires)

Lua Adversa


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

 - Cecília Meireles

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Esquadros

("Eu ando pelo Mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome...")

Quando era criança odiava esse tipo de musica, hoje não fico um dia sem ouvir...

É tão engraçado como os gostos mudam com o passar do tempo. 
Essa musica eu peguei no computador do meu tio a algum tempo, agora adoro MPB e você participou disso tio, Obrigado.

Adorei esse vídeo, a pessoa que o fez combinou as imagens de acordo com o que a musica fala. Espero que gostem...

Porque pensar é não compreender...


"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…"

Alberto Caeiro

O Guardador de Rebanhos



‎"Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver."

-Alberto Caeiro