terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Isso aqui é uma guerra, senhora"




Ouvi isso de um guarda do metro República na semana passada durante a repressão que rolava no centro diante do primeiro ato. Fiquei pensando nisso por um tempo e hoje essa frase passou a ter todo o sentido: realmente estamos em guerra.

Estávamos no meio da Praça do Ciclista quando as primeira bomba foi jogada, e ao contrário do que a mídia notícia, não estava acontecendo nada além da manifestação pacífica contra o aumento da tarifa. Aparentemente palavras de ordem gritadas e tocadas por militantes virou motivo para uma verdadeira carnificina.

Quando a primeira bomba foi jogada, estávamos no meio da Praça dos Ciclistas, onde ocorreu a concentração do ato e de onde ele sequer conseguiu sair. De acordo com o que nos avisavam pelo celular, estávamos cercados por todos os lados, a Consolação estava lotada de PM, na Paulista tinha parede de militares, a rebouças também estava bloqueada, ou seja, não tinha pra onde correr.

As bombas vinham da Consolação e no outro sentido uma parede de policiais do choque nos aguardava e durante isso o ambiante era tomado por uma fumaça branca, tóxica, que fazia seu olho e todo o rosto arder, praticamente acabando com a possibilidade de enxergar para onde estava indo e causando uma enorme dificuldade de respirar.

Segurei a mão de um amigo e juntos corremos para um lado tentando fugir das bombas, quase sem enxergar nada eu praticamente andava sem saber pra onde enquanto as bombas eram jogadas em nossa direção. Por um momento tivemos um vislumbre da parede de PMs que travava a Paulista tendo uma brecha e quando corremos para lá nos deparamos com os policiais militares atacando os manifestantes que estavam fugindo das bombas com cacetetes. Essa cena me fez perceber o quão sádica é a policia militar. Recuamos para o outro lado e conseguimos passar por eles sem ser pegos, eu nunca senti tanto medo de ser pega quanto naquele momento.

Saímos correndo pelas ruas da Paulista até chegar em um local em que a gente pudesse respirar, era um misto de cansaço, com falta de ar, com dor nos olhos e raiva por se perceber impotente diante de uma situação como aquela. Enquanto andávamos pelas ruas, nos deparamos com alguns trabalhadores saindo de seus serviços e passando mal pelo cheiro do gás que mesmo de longe incomodava.

Hoje o poema do Carlos Drummond de Andrade passou a ter um significado diferente pra mim, "de mãos dadas" agora significa estar em segurança por que se não fosse a companhia de um amigo hoje durante a repressão eu com certeza seria uma das dezenas de pessoas feridas nesse ato. A sensação de não conseguir respirar, de não enxergar o que está acontecendo, somado com o barulho das bombas e dos gritos da galera foi terrivel, mas olhar para o lado e ver as pessoas se ajudando, ver que eu mesma estava ao lado de um companheiro de lutas, me dava forças para continuar nossa caminhada.

Não há repressão policial que vai nos tirar das ruas, que vai nos impedir de lutar não só contra o aumento da passagem, mas lutar por uma sociedade mais igualitária e justa, livre da repressão policial que todos os dias assassinam jovens negros nas periferias desse país, e que hoje nos mostrou que não medem esforços para reprimir a população.

Quinta feira tem mais ato, e desas vez em vários lugares, não vamos nos render, se a tarifa não baixar continuaremos ocupando as ruas, e quanto mais repressão rolar para nos impedir de lutar por nossos direitos, mais manifestações faremos.

Não aceitaremos a  criminalização dos movimentos sociais que ocupam as ruas e lutam pela revogação do aumento da tarifa. Junho de 2013 já provou que não hpa repressão policial capaz de conter as massas, parece que Alckmin não entendeu nada disso. Espero profundamente que o Prefeito Haddad se pronuncie repudiando toda essa violência e pare a repressão de Geraldo Alckmin, ou será conivente com a tragédia.

Seguiremos ocupando as ruas, por que nossos sonhos e nossas utopias não há bomba que consiga acabar.

Vem pra rua vem  !


Tamires Sampaio

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