segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2018: sobre autocuidado e liberdade para Lula


"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." 
Carlos Drummond de Andrade

Cá estou eu sentada na minha sala, nessa última segunda feira do ano com minha mãe, tio e avó esperando a comida ficar pronta depois de ter passado o dia acertando os detalhes pra ceia da virada que esse ano vai ser em casa. 2018 foi um ano difícil pra mim, um ano em que eu aprendi na dor que o nosso corpo fala e a gente tem que ouvir, que nossa saúde é prioridade a qualquer  coisa. Foi um ano de dores, derrotas, mas também de vitórias, cooperação internacional e muita luta.

Iniciamos o ano ocupando as ruas em defesa da democracia, contra o golpe que vivemos no país, e em especial em defesa de Lula, que estava sendo perseguido pelo Poder Judiciário por que 2018 foi um ano de eleição e ele não podia ser candidato, por que sendo ganharia a eleição e o projeto democrático e popular voltaria a ser implementado no Brasil.

Dia 7 de abril Lula foi preso nos braços no povo após três dias intensos de ocupação no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, lugar onde a vida politica de Lula se iniciou, e onde milhares de pessoas resistiram. Hoje lá em Curitiba, na sede da PF, a vigília Lula Livre no Acampamento Marisa Letícia resiste por mais de 8 meses: não sairemos de lá enquanto Lula não for libertado.

Na semana em que Lula foi preso eu, que estava com a barriga inchada a um tempo, fui ao hospital e depois de alguns exames e consultas com ginecologistas eu descobri que estava com um tumor no ovário e precisaria fazer cirurgia. A cirurgia foi no final de junho, o tumor retirado estava com 20cm. Um mês após a cirurgia com o resultado da biopsia descobri que o tumor era maligno e que teria que fazer quimioterapia.

A gente nunca espera se descobrir com câncer aos 24 anos, é muito difícil processar e acho que até agora não consegui entender direito o que foi esse processo todo. Fiz quatro ciclos de quimioterapia de cinco dias com intervalo de 21 dias. Foram 20 sessões de quimio em quatro meses de tratamento. A última sessão foi semana passada e mês que vem provavelmente terei minha alta oficial. Estou feliz por estar bem, meio fraca, mas viva. O tratamento foi difícil, tema para outros textos e talvez vídeos. Agradeço aos Deuses, Orixás e todos os meus guias que me protegeram e me deram força para passar por todas as sessões e ficar bem.

Mas o ano me trouxe surpresas alegres também. No dia da minha cirurgia eu recebi um convite para participar de um grupo de trabalho responsável por atualizar a Magna Charta Universitatum, documento que fala sobre princípios e valores das universidades escrito 30 anos atrás por 5 reitores de universidades europeias. Fizemos uma reunião presencial em setembro na Universidade de Salamanca na Espanha e ano que vem faremos novas conversas para avançar na produção desse documento. Sou a única brasileira e estudante desse grupo e estou muito feliz em fazer parte desse projeto.

2018 foi ano de eleição, o PT apresentou a candidatura de Lula que foi impedida pelo TSE e acabou sendo substituída pelo Haddad que rodou o Brasil defendendo o nosso projeto, chegou ao segundo turno contra Bolsonaro, mas perdeu as eleições graças a uma serie de fake news e uma campanha de criminalização ao PT e ao Lula. Mesmo com o resultado da eleição creio que Haddad e o PT saiu vitorioso dessa campanha, tivemos mais de 47 milhões de votos e isso deixou claro que o PT ainda é o principal partido de esquerda do país, o que tem o maior lastro social e o que tem o desafio de construir respostas para os problemas sociais colocados e de retomar a nossa base social perdida e voltar a liderar o país com nosso projeto democrático e popular atualizado para as demandas atuais do país. Espero que durante o governo Bolsonaro a gente tenha capacidade de mobilizar a população para enfrentar a onda de retrocessos que virá.

2018 foi um ano de lutas, de campanha pela liberdade de Lula, de congressos, de viagens, de conversas, mas principalmente foi um ano em que eu entendi a importância do autocuidado, da saúde física, mental e espiritual. Espero aprender com tudo o que passei, espero me fortalecer com as fraquezas que tive, espero estreitar mais os laços que foram feitos durante esse período difícil.

Termino o ano agradecendo a vida, a força e as fraquezas e principalmente o amor, amor de mãe que me acompanhou em todos as consultas e momentos mais difíceis, amor de companheiro que me fez ir pro hospital e que ficou comigo durante todo o tratamento, as amizades novas que fiz e as que cultivei por mais esse ano. O amor é um sentimento muito poderoso e se tem uma coisa que me fez ficar de pé e enfrentar todo esse ano foi o amor.

Que 2019 venha com mais maturidade, saúde, com força pras lutas que iremos travar, com Lula Livre.

Tchau 2018. Feliz Ano Novo ! Axé !



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