terça-feira, 23 de julho de 2013

Educação e Racismo no Brasil



É impressionante como o racismo está enraizado em nossa sociedade, alguns comportamentos e comentários que nos parece tão comum são muitas vezes carregados de um imenso preconceito direcionado ao povo negro que teve um trágico, para não dizer sangrento, inicio nesse país. Mesmo com a abolição da escravidão o negro não tinha as mesmas oportunidades que os demais grupos da sociedade, muitas vezes tendo que trabalhar o dia inteiro em troca de um prato de comida para sua família sendo que seu acesso à educação era limitado ao básico que necessitava saber para cumprir as tarefas diárias.

Com o passar dos anos muitas lutas foram feitas e o povo negro conquista o direito de ir à escola, pois este era até então, um direito exclusivo das mais altas classes da sociedade. Mesmo com a oportunidade do estudo, muitas vezes por precisar ajudar a manter a casa, por precisar trabalhar na roça, raros eram os que conseguiam sequer terminar o ensino considerado fundamental para a formação do cidadão.

Passado mais de um século após a Abolição da Escravidão pode se perceber a imensa diferença da situação social dos ascendentes dos negros se comparadas aos demais povos que vieram se aventurar nessa terra. Isso se deve a história de formação do país, e de como os valores foram formados por aqui. Vivemos em um país em que cerca de dois terços de sua história está manchado com a escravidão e exploração do negro africano e seus descendentes. Esse dado influencia e explica o porquê da discriminação racial estar tão presente no nosso dia a dia.

A discriminação racial tem reflexos no sistema educacional brasileiro e impacta o acesso e a permanência do negro nas salas de aulas. No País, entre os analfabetos absolutos acima de 15 anos, estão 7,5% dos brancos e 20% de negros (pretos e pardos), de acordo com os dados do Censo 2002, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quando consideramos o analfabetismo funcional, menos de quatro anos de estudo, 36% da população negra permanece nessa condição, contra o percentual de 20,2% da população branca. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra que, apesar da proximidade no número de matrículas no ensino fundamental para negros e brancos (94,7% para brancos e 92,7% para negros), a evasão escolar é maior entre os alunos negros. Dados do IBGE apontam que, entre os estudantes de Ensino Médio, a quantidade de brancos é quase o dobro da de pretos e pardos (52,4% para 28,2%). No Ensino Superior, os brancos estão cerca de quatro vezes mais presentes que os negros (15,5% contra 3,8%).

Diante desses dados a perplexidade nos persegue, pois ao considerar que somos a segunda maior nação de negros do mundo e que apenas uma parcela pequena termina o Ensino Médio e essa parcela diminui mais ainda quando se trata do Ensino Superior percebemos que temos muito pelo que lutar para reparar a discriminação em nosso país, para que todas e todos tenham acesso a um ensino público de qualidade.
O Movimento Negro no Brasil teve muitas vitórias, mas nossa luta continua e persiste para que nossas escolas e universidades sejam cada vez mais coloridas e que em consequência o povo negro ocupe mais cargos de poder, para que assim a discriminação racial no Brasil esteja cada vez menor e distante.




Lei 10.639 – Conhecendo nossas origens
A forma como o negro e a África foram abordados nas escolas, até então, é apontada por estudiosos como responsável pela evasão escolar de alunos e alunas negros vítimas de racismo no livro didático e, portanto, com dificuldades de valorizar sua própria identidade. Contribuiu, ainda para fortalecer a cultura de intolerância e desigualdade racial que até hoje permeia as relações sociais no país.
Assim, a necessidade da inclusão da temática no currículo oficial vinha sendo discutida há anos por integrantes do movimento negro, no intuito de romper com a visão eurocêntrica repassada nas salas de aula. Mesmo lugar em que ao negro e ao continente africano restavam papeis estereotipados e relegados à inferioridade.

Em janeiro de 2003, após quatro anos de tramitação, foi promulgada a lei 10.639, de autoria da então deputada Esther Grossi. Esta lei inclui no currículo oficial dos estabelecimentos de educação básica, das redes pública e privada, a obrigatoriedade de estudo da temática História e Cultura Afro-brasileira. A promulgação dessa lei é uma vitória para o movimento negro e estudantil, pois grande parte dessa cultura foi perseguida e proibida por muito tempo e até hoje grande parte sofre discriminação. Outro grande motivo de comemoração a essa lei é que a partir dela podemos esperar que os alunos vão aprender realmente sobre a história de nosso país, e assim valorizar mais esse povo que literalmente ajudou a construir o país.
Sua proposição e aprovação é fruto de reivindicações do Movimento Negro (MN) e do Movimento de Mulheres Negras (MMN), que se intensificaram a partir dos anos 70 e culminaram em 1995 com a Marcha Zumbi dos Palmares, quando 30 mil pessoas entregaram ao então presidente Fernando Henrique Cardoso um documento pleiteando políticas para combater a desigualdade racial.

 O desafio agora é fazer valer a lei em todo o território nacional. O Observatório da Educação, programa da ONG Ação Educativa, que tem como objetivo aprimorar o controle social das políticas educacionais, defende a aprovação da Lei como sendo um marco na luta por reconhecimento e valorização da história e cultura afro-brasileira e africana e na afirmação de direitos da comunidade negra do Brasil. Para a ONG, esse reconhecimento implica profundas mudanças de discurso, postura e relações entre cidadãs e cidadãos do país, começando pela desconstrução do mito da democracia racial que ainda existe na sociedade brasileira.

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros,em entrevista para CUT-SP disse que para se ter uma dimensão do impacto da adoção da Lei nas salas de aula, basta imaginar uma criança que tenha entrado na escola em 2003, e hoje, já adolescente, está cursando o ensino médio.

“O que se espera é que os mais jovens, que estão tendo acesso ao conhecimento sobre a História e Cultura Afro-Brasileira, que nenhum de nós de gerações anteriores recebeu, possam contribuir de forma mais efetiva para um Brasil democrático, pautado no respeito à diversidade. Um Brasil que acredite na igualdade racial, porque valoriza suas matrizes africanas; porque reconhece as contribuições da África e de seus descendentes para a formação do país.”



A Cota Racial é Constitucional, decide o STF.
Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) validou no dia 26 de abril de 2012 a adoção de políticas de reserva de vagas para garantir o acesso de negros e índios a instituições de ensino superior em todo o país. O Tribunal decidiu que as políticas de cotas raciais nas universidades estão de acordo com a Constituição e são necessárias para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil.

Essa decisão foi outra grande vitória, pois com a garantia da Constitucionalidade das Cotas Raciais se perderam praticamente todos os argumentos contra as cotas. O reconhecimento da necessidade de reparação da sociedade para com o povo negro que foi e é discriminado até hoje, e que tem o reflexo dessa discriminação na educação, foi um grande avanço para nossa história.

Após um ano do julgamento vemos que apenas a garantia da constitucionalidade não é o suficiente, temos que incentivar nossos alunos a estudar cada vez mais, ir para a faculdade e ocupar esses espaços que é de direito de todos.


PIMESP: Reprodução de um Governo Racista
No final de 2012, o governo do Estado de São Paulo se vendo pressionado a regularizar as cotas nas Universidades Públicas, lança o Programa de Inclusão Por Mérito, o PIMESP. Tal programa é a concretização da discriminação racial do Estado, um programa que deveria regularizar o acesso do negro nas Universidades Públicas de São Paulo, se mostra nada mais do que um impedimento descarado para esse acesso.

O PIMESP prevê que o aluno cotista deve, ao prestar o vestibular, ter dois anos de aulas a distância em um Instituto Comunitário de Ensino Superior (ICES), o chamado “College”. A principal justificativa do governo estadual para a instituição desse sistema é a de que os estudantes cotistas precisam de “formação sociocultural para exercício da cidadania”.  Como se “formação para cidadania” fosse um conteúdo cobrado em qualquer vestibular.

Em um debate promovido pela da Frente Pró Cotas Raciais o professor Dennis de Oliveira, do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Estudos Interdisciplinares sobe o Negro Brasileiro da USP, a proposta do “college” é racista, pois cria duas categorias diferentes de estudantes para as universidades. “A proposta estadual parte do pressuposto de que a população negra e pobre é despreparada para entrar na universidade”, completou.
Pesquisas indicam que o aluno cotista, nas universidades, possui um aproveitamento igual ou maior que o aluno não cotista o que prova que a ideia do governo de que o aluno cotista precisa desse reforço é absurda. O Prof. Silvio Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama, diz em seu discurso que “Se está demonstrado que estudantes cotistas, nas análises realizadas em universidades onde cotas foram adotadas têm igual, ou melhor, rendimento acadêmico que estudantes não cotistas, estes é que precisariam de reforço acadêmico, e não o contrário”.

Vemos nesse projeto a reprodução de uma sociedade em que a discriminação racial está tão enraizada que até uma politica de inclusão, como é a das cotas, é deturpada e passa a servir como um modo de afastar o aluno negro das universidades publicas do estado. Pesquisas indicam que o aluno cotista está tão bem quanto o não cotista nas universidades, então pra que server o College senão para mantê-lo afastado da universidade?

A Frente Pró Cotas Raciais, que está na luta pelas cotas a muitos anos, está promovendo uma grande mobilização contra o PIMESP e a na luta por um Projeto de Lei sobre a regulamentação das cotas que tenha a participação do movimento negro, da sociedade civil, ou seja, dos que vão ser diretamente atingidos por esse programa, pois até isso o Governo do Estado de São Paulo resolveu ignorar ao apresentar esse projeto sem a participação o movimento negro, querendo impor o PIMESP para a sociedade civil paulista.




Projeto de Lei de Iniciativa Popular para a Regulamentação das Cotas. Se junte a nós nessa Luta!
A Frente Pró Cotas Raciais compostas por diversos grupos do movimento negro, das entidades estudantis, a Secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, representantes dos professores das universidades publicas de São Paulo, representantes do Movimento Estudantil, entre outros, promoveu diversos debates para a formação de um Projeto de Lei que regulamente as cotas, com a efetiva participação de todos esses representantes mencionados acima, para que essa regulamentação seja realmente legitima e justa.

O Grupo de Trabalho que está responsável pela atualização dos PL’s 530/2004 e 321/2012 foi formado em reunião da Frente, e a partir das reinvindicações feitas pelos representantes de cada entidade formaram o Projeto de Lei de Iniciativa Popular que está esta nas ruas desde a semana passada. Para que o Projeto de Lei seja homologado é preciso de cerca de 160 mil assinaturas, a Frente Pró Cotas está prevendo que até novembro conseguirá cerca de 200 mil.

Participe dessa coleta de assinatura e nos ajude na luta para uma regulamentação das cotas realmente justa e com a participação da massa. Para que as nossas escolas e universidades sejam cada vez mais coloridas, e para que o negro cada vez mais ocupem os cargos e profissões de mais alto escalão. Vamos acabar com essa discriminação existente em nosso país, e com essa proposta do governo que vai aumenta-la mais ainda. As cotas são um Direito, o PIMESP é preconceito!

Tamires Sampaio