terça-feira, 29 de abril de 2025

2021: Segurança Cidadã na prática


"eu voltei... será que agora é pra ficar? rs"

Estou no final de abril de 2025, e depois de uma conversa aleatória com uma pessoa que se tornou um grande amigo sobre a importância de registrar nossa vida, encontros, pensamentos, sobre o poder dos nossos diários, eu percebi que tinha parado de fazer esses textos de balanços anuais que de 2013 até 2020 viraram tradição do final final de ano.

Corri atrás desse site, comecei a ler os textos antigos e me deu vontade de escrever de novo. Afinal, esse registro, por mais que sejam apenas um reflexo curto do ano, são importantes para a memória das vivenciais que me marcaram. Correndo o risco de perder pontos importantes, vou retomar a partir do ano que parei, nesse caso, 2021.

Se 2020 foi o ano em que a política da morte se escancarou, 2021 eu aprendi como se constrói na prática uma política de segurança cidadã a partir da experiência como Secretária Adjunta de Segurança Cidadã na prefeitura de Diadema. Em 2020 fui candidata à vereadora pelo PT em São Paulo, por uma cidade antirracista e o bem viver, e segurança pública foi um dos vários pontos que dialogamos durante a campanha. Em Diadema o PT elegeu como Prefeito o companheiro José de Filippi, que já havia governado a prefeitura da cidade outras três vezes e que resolveu nomear como Secretário de Segurança Cidadã o Benedito Mariano, que é uma grande referência na área da segurança pública e que me convidou para ser sua secretária adjunta.

Eu ri quando li os últimos textos por que de alguma forma todo final de ano eu acho que o ano que passou foi o mais maluco da minha vida. E escrevendo em retrospectiva sobre 2021 é surreal pensar onde estou agora e onde passei. Mas, sem spoilers (rs), sigo sobre o ano de 2021.

Acho que esse foi o ano que eu defini o tema da segurança pública como o meu tema de vida. Desde a graduação eu pesquiso, desde o inicio na militância do movimento negro sei que esse é um tema central, mas foi em 2021, a partir da experiência em Diadema, que eu entendi que esse é o tema que eu quero me aprofundar do ponto de vista intelectual, acadêmico e profissional.

Em Diadema participei da formulação de políticas de segurança para o município, da disputa política necessária de ser feita para construir políticas de prevenção e não de repressão. Inclusive, entendi ali o quão complexo é pra esquerda que governa uma gestão enfrentar os ataques da oposição nessa área e se sobrepor ao senso comum que sempre aponta pra repressão quando o assunto é segurança.

Tive a oportunidade de coordenar a criação da Patrulha Maria da Penha na GCM da cidade e promover a articulação com as diversas secretarias da Prefeitura. Pude lecionar uma disciplina sobre racismo estrutural e segurança pública no Estágio de Qualificação Profissional da GCM, foram aulas que transformaram minha visão da segurança pública. Eu era a professora, mas com certeza eu sai de todas as aulas aprendendo mais do que imaginei ser possível a partir das provocações e debates com os guardas da cidade. Por duas semanas assumi como a primeira mulher negra, e a mais jovem, a ser Secretária de Segurança Cidadã da cidade de Diadema. Todos os desafios de como gerir uma gestão municipal, de onde conseguir orçamento, de como consolidar dados e promover articulação integrada com as diversas áreas da gestão publica foram ricos aprendizados desses quase um ano e meio de gestão.

Nesse ano ainda enfrentávamos a pandemia do Coronavírus, os trabalhadores da saúde e da segurança eram os únicos que não tinham trabalho remoto, então cada dia era um cuidado enorme para não se colocar em risco ou os mais próximos também. O Brasil alcançou números terríveis, centena de milhares de pessoas morreram, em especial por ter na época um PR que não se importava com o povo. A vacina chegou ao Brasil, iniciamos a imunização a partir dos grupos prioritários, graças ao SUS conseguimos avançar e salvar vidas. Mas, a pandemia deixou marcas para sempre, e isso a gente não tinha tanta noção na época, mas esses anos de pandemia e isolamento de alguma forma iriam moldar uma nova dinâmica de viver em sociedade, iria moldar a geração que estava se formando ali. 

No Instituto Lula seguimos com debates sobre a situação do país, com campanhas pela democracia e pela defesa do legado do Lula. Depois de muita luta, esse foi o ano em que o Presidente Lula recuperou os direitos políticos após a anulação promovida pelo STF de sua injusta condenação e a partir dai se iniciou um processo de construção coletiva para a retomara de um projeto democrático e popular para o Brasil que traria consequências concretas no ano seguinte. 

Eu voltei a treinar Kung Fu, e foi uma experiência tão incrível poder cuidar da minha saúde física e mental retomando uma arte marcial que treinava quando era adolescente. A Li Fei Lin é uma academia em Santo André, meio do caminho entre o trabalho e minha casa, que virou parte do meu refugio semanal. 

Esse também foi o ano que minha vida espiritual tomou um caminho que não esperava, e é muito doido quando você vê os caminhos que Orixá cria pra você ir tomando forma. Eu sai junto com minha família paterna do Axé Ilê Obá e depois de um jogo de búzios em que entrei com várias certezas e sai com todas as dúvidas possíveis descobri que meu irmão de santo, que já tinha cuidado de mim através de seus guias, era na verdade meu pai de Santo. E que sua casa, que tinha acabado de ser comprada, terreno de mata fechada, sem ninguém saber, era também a morada dos meus orixás e meus guias. 

Prestei o Doutorado na USP e não passei, descobri novos autores, li novos livros, participei de vários debates. Fui consolidando o objeto de pesquisa que queria fazer e que mais pra frente iria mudar.

Foi um ano de aprender a me descobrir mais, a me deixar levar, conhecer novas pessoas, curtir (com cuidado, é claro, afinal, pandemia ainda estava ali). Viajei no final do ano para o Nordeste para passear, mas também para reencontrar queridos companheiros e companheiras. Iniciamos um projeto político para 2022, construção de sonhos e lutas dessa vez com companheiras e companheiros do estado de São Paulo como um todo.

Eu com certeza deixei passar alguma coisa, mas esse foi um ano de aprendizado e de fincar ancoras em algumas certezas que moldariam minha vida adulta. Decisões tomadas ali, influenciaram onde estou agora.

E mais uma vez foi um ano que minha vida foi uma loucura, que chorei, sorri, vivi, amei, conheci novas pessoas, aprofundei relações, me distanciei de quem devia, conheci quem não imaginava. Lançamos a Magna Charta Universitatum 2020, depois de muitos debates e conversas e propostas de mudanças acolhidas. 

Foi um ano de preparação. Ansiosa para contar os anos seguintes, paro aqui com esse relato sobre 2021. Estou feliz por ter voltado a escrever, espero não demorar mais quatro anos para fazer o ano seguinte haha

Que venha 2022!