quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020: a política de morte se escancara

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." 
Carlos Drummond de Andrade


 Hoje é dia 31 de dezembro de 2020 e eu nem acredito que o ano já acabou, parece que os meses, os dias, as horas se aceleraram demais esse ano. Tudo muito rápido, muito urgente, muito grave, solidariedade, mobilização e ao mesmo tempo apatia, inércia, imobilidade. Parece contraditório escrever isso, mas nesse ultimo dia do ano essa contradição é o meu sentimento sobre esse ano. 

A sindemia do coronavírus causou cerca de 200 mil mortes no Brasil e mais de 7,6 milhões casos confirmados, isso sem contar na subnotificação que sabemos que foi enorme. O governo Bolsonaro atuou de forma extremamente irresponsável e contribuiu para que esse número até hoje se elevasse. Estamos terminando 2020 com mais de mil mortos por dia e sem previsão de inicio da vacina enquanto na maioria dos países do mundo o processo de imunização já se iniciou. 

2020 foi o ano em que a "necropolítica" se escancarou. Organização do poder para a produção da morte. No caso do Brasil o poder é simbolizado pelos desmontes e ataques do governo federal para a produção de mortes negras e da periferia, que são as maiores vitimas dessa violência crescente em nosso país, e que foram as maiores vítimas do coronavírus. E exatamente por isso foi o ano em que se escancarou a necessidade de se colocar no centro de todas as discussões as relações raciais. 

Vidas Negras Importam. Não existe Democracia sem o Combate ao Racismo. O racismo é estrutural e como tal precisa ser combatido através da transformação da estrutura social, da superação do sistema político, jurídico e econômico. Esses temas tomaram as redes e as ruas, não só no Brasil, mas no mundo, e eu espero que essa centralidade vire de fato realidade, e que o novo normal pós pandemia, tenha como prioridade esse necessária transformação.

Mas falando sobre o meu ano, tenho que ser grata. Eu realizei alguns sonhos, amei, sorri, chorei, conheci pessoas maravilhosas que espero levar pra vida, construí e representei nas urnas sonhos coletivos, publiquei meu primeiro livro, estou viva, minha família está bem.

Conheci Capitólio antes da pandemia chegar, lugar maravilhoso que espero voltar. Ocupamos as ruas em um 8 de março incrível que mesmo debaixo da chuva não impediu as mulheres de lutarem. Fiquei em casa. Junto de centenas de pessoas de São Paulo construímos e apresentamos um projeto Por uma cidade Antirracista e o Bem Viver em São Paulo que teve 11.451 votos em nossa campanha pra vereadora pelo PT. A maior parte da pré-campanha foi on-line, mas a campanha foi nas ruas, dialogando com as pessoas, com distanciamento e cuidado, mas com esperança de que juntos nós podemos transformar nossa cidade. As pessoas, movimentos, inciativas e diálogos que fizemos nesse processo foram incríveis e me marcaram pra vida inteira. Estou mais convicta de que o PT é um instrumento de transformação social e mais ainda de que a nossa organização social e popular é fundamental.

O mestrado que terminei ano passado foi publicado em livro pela Editora Contracorrente, Código Oculto ocupou as prateleiras das livrarias esse ano com uma dissertação sobre política criminal, racismo estrutural e obstáculos à cidadania da população negra no Brasil que veio acompanhada de uma apresentação do Lula, prefácio do Silvio Almeida, contracapa da Matilde Ribeiro e posfácio do Humberto Fabretti. Todos grandes referências e inspirações para mim. Esse livro é resultado de sonhos coletivos, e é só o inicio de uma carreira acadêmica que busca o link da teoria e prática, pra transformação da estrutura social.

Hoje não tenho muito tempo pra escrever mais, ainda tenho que arrumar algumas coisas pra essa minha virada, então tem muita coisa que deixei de escrever sobre esse ano, mas não podia deixar de vir aqui pra publicar esse já tradicional texto. 

Eu desejo pra 2021 saúde coletiva, física, mental, espiritual, pública, gratuita e de qualidade para todes. Por que se tem uma coisa que  o mundo percebeu esse ano é que sem saúde coletiva, não vamos pra lugar nenhum. 

Que venha o ano novo e essa nossa possibilidade de se reinventar e iniciar um novo começo, novas histórias, novas revoluções. Que venha a vacina e com ela os encontros presenciais, as aglomerações, a luta, mas também o afeto. 

Muito obrigada 2020, que a gente absorva os ensinamentos e se fortaleça com os recados dados.

Vem com tudo 2021, vem vacina, vem novas experiências, lutas e esperança.

Feliz Ano Novo. Axé!