sábado, 31 de dezembro de 2016

2016: Lutar, Ocupar, Resistir !


"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." Carlos Drummond de Andrade


Nos últimos anos eu adquiri a "tradição" de fazer um texto sobre como foram os últimos 12 meses que passaram, pois assim eu consigo agradecer e ao mesmo tempo ter uma noção de tudo o que eu fiz durante o ano inteiro. E a cada ano que passa eu tenho a impressão que tinha acabado de passar pelo ano mais louco, mais improvável, mais intenso da minha vida e esse ano de 2016 se supera nesse quesito hahaha Dado isto, uma retrospectiva desse ano com certeza não será fiel ao todo, pois é impossível escrever em um texto tudo o que eu passei, mas vamos lá.

O ano já começou a loucura da luta contra o aumento da passagem em São Paulo, do processo de Impeachment da presidenta Dilma que tinha acabado de ser aceito pelo Cunha, a gestão da UNE e suas intensas agendas, os diversos atos, o trabalho e no meio disso tudo o meu último semestre na Faculdade de Direito do Mackenzie (e junto com ele o TCC, OAB e as provas finais), ou seja, muita luta, muita resistência e muita disciplina pra conseguir fazer isso tudo.

Olhando pra trás e pensando em tudo o que passamos nesse ano, eu tendo a acreditar que realmente tudo é possível quando se tem determinação, por que por mais que politicamente pareça que o ano esteja acabando da pior maneira possível: com Trump, Temer, Alkimin e Dória, com a PEC sendo aprovada, e o roteiro do golpe seguindo com sucesso, os ataques ao Lula e ao PT, por outro lado acompanhar esses diversos coletivos que vem surgindo, ver milhares de jovens ocupar as ruas em defesa da Democracia, ver as mulheres derrubarem o Cunha depois de muita mobilização social, participar da maior mobilização da história do movimento estudantil com milhares de escolas e universidades ocupadas, saber que tenho ao meu lado companheiras e companheiros que não fogem da luta,  me dão força pra acreditar que toda crise nada mais é do que uma oportunidade para transformar, se fortalecer e vencer.

Em junho de 2016 eu me formei bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com 10 no TCC e já aprovada na Ordem dos Advogados do Brasil. Esses cinco anos que passaram tão rápido, que transformaram minha vida de tal forma, que me causaram uma verdadeira Catarse, foram sem sombra de dúvidas os mais importantes da minha vida, e todo o aprendizado e as amizades que carrego de lá terão espaço em minha vida e meu coração por toda a vida. Meu orientador, meus professores, os funcionários, minha sala, minhas amigas e amigos, todos e todas que de alguma forma cruzaram esses cinco anos foram essenciais para essa reviravolta que passei. Agora sou advogada, mas se tem uma certeza na carreira que seguirei é a de professora, então em breve esterei de volta para a universidade no meu mestrado, doutorado, pós doc e até quem sabe outra graduação. Ter a minha mãe ao meu lado em todos esses momentos, da colação de grau à formatura, e até na entrega da carteira da OAB foi essencial, pois é por ela e com ela que eu passei por isso tudo, que nós tivemos essas vitórias e que com certeza teremos outras daqui pra frente.

O meu TCC foi sobre Segurança Pública e  o Genocídio da Juventude Negra no Brasil, e estudar esse tema com tanta intensidade, me fez perceber que não existe a possibilidade de qualquer transformação real sem se considerar o histórico de violência e segregação da população negra, e isso quer dizer que sem combater o Racismo não há democracia, não há combate real ao capitalismo e em consequência, não há a construção de uma sociedade socialista, democrática e popular.

Mesmo tendo me formado continuo no movimento estudantil pois minha tarefa como vice presidenta da UNE segue até junho de 2017, e com isso, pude nesse ano organizar e participar de momentos históricos com os estudantes, seja na luta contra o golpe e em defesa da democracia, ou nos nosso eventos que a cada edição cresce e se renova com a participação de milhares de estudantes do país inteiro. Os encontros setoriais da UNE foram deslocados para o ano não congressual e isso fez com que nós pudessemos dar prioridade para o Encontro de Mulheres Estudantes (EME), o Encontro de Estudantes Negrxs (ENUNE) e o Encontro LGBT da UNE, que reunirão milhares de estudantes do Brasil inteiro, em Niterói, Salvador e São Paulo para construção de um movimento estudantil livre do racismo, do machismo e da lgbtfobia.

A gestão da UNE também me proporcionou a realização de um sonho esse ano, de viajar para fora do país, pois esse ano tive a oportunidade de representar os estudantes brasileiros no Global Students Voice na Noruega e no Students Solidarity na Russia. Dois seminários internacionais com líderes estudantis do mundo inteiro que mudaram completamente a minha visão sobre o movimento estudantil e a importância da luta por uma educação de qualidade e gratuita para todas e todos. Percebi que a juventude e os estudantes falam a mesma língua em vários países do mundo e mesmo com realidades diversas é gratificante ver a nossa luta refletida em outras, isso nos trás uma ideia de movimento global, de voz global dos estudantes, que renova e fortalece nossas lutas e forças.

No ano de 2016 eu finalmente entrei no Axé Ile Obá como abiã do axé, me tornei filha da Yalorixá Paula de Iansã e é inexplicável o quanto isso mudou a minha vida, o quanto diariamente me sinto mais fortalecida e o quanto eu estou feliz e honrada por estar ao lado de irmãs e irmãos e da minha ancestralidade que passa da quarta geração nesse Ilê. Sou filha de Iansã e Oxossi, tenho a força das tempestades e a profundezas das raízes das florestas e não vejo outro lugar onde meu desenvolvimento espiritual se encontraria como lá.

Esse ano também tive a certeza de estar ao lado das pessoas certas em minha militância, a construção de um novo Brasil não é fácil e não se acaba nunca, pois a cada vitória um novo desafio é apresentado, e seja no meu coletivo de base, no Nós PT, na PARATODXS, na JCNB, na CONEN, ou no Partido dos Trabalhadores, nesse ano de crise, de grandes ataques, de autocrítica necessária e de renovação precisa, a cada processo que participei, cada ato, cada seminário, congresso, reuniões intermináveis, ações diretas, ocupações ou simples conversas com companheiras e companheiros, com dirigentes e grandes referências, eu tive a certeza de que estou ao lado de quem não irá descansar até viver em uma sociedade livre de todo e qualquer tipo de opressão.

Em 2016 ocorreu um golpe no Brasil, a primeira mulher eleita Presidenta da República sofreu um impeachment sem crime de responsabilidade, por erros nossos, mas também por nossos acertos. Os 13 anos de governos petistas, do Lula e Dilma, foram demais para uma elite que é historicamente privilegiada em nosso país, que não suporta ver o filho da empregada se formar em medicina, dividir o espaço no avião, ver o crescente aumento do salário mínimo, os mais de 40 milhões que saíram da miséria e muito mais, essa elite não suporta essas transformações mínimas e se unificaram para dar um golpe midiático, jurídico e político, que tem como principal representação uma agenda de retrocessos a direitos conquistados. Mas a nossa falta de capacidade de dar respostas à altura do golpe que sofremos se deve aos nossos erros, à burocratização do partido, à falta de disputa ideológica, ao pouco trabalho de base, dentre outras coisas, que eu espero que nesse processo congressual sejam debatidas, reformuladas e transformadas, para que a partir dessa crise a gente (Partido dos Trabalhadores) se renove e se fortaleça, e eu estou cada vez mais certa de que a juventude tem um papel essencial nessa transformação.

Enfim, 2016 foi um ano de finais de inícios de ciclos, de muita luta e resistência, de aprendizado, formação e de entender a importância da formulação. Amei, sorri, chorei, viajei, lutei, me fortaleci, cresci, me formei, conheci novas pessoas, descobri o mundo, dancei, pulei, fiz novas amizades, fortaleci amizades velhas, aprendi a desapegar das coisas e pessoas, fui ao mar, conheci paraísos, ocupei, resisti e descobri, e percebi que uma das minhas tarefas pra vida é, assim como fiz no Mackenzie, ajudar a realizar uma Catarse no mundo inteiro haha

Adeus 2016, obrigada por todo aprendizado.

Vem com tudo 2017, que depois desse ano nada vai surpreender a gente  (e isso não é um desafio)
hahaha

Feliz Ano Novo ! Axé !


Tamires G. Sampaio















terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Isso aqui é uma guerra, senhora"




Ouvi isso de um guarda do metro República na semana passada durante a repressão que rolava no centro diante do primeiro ato. Fiquei pensando nisso por um tempo e hoje essa frase passou a ter todo o sentido: realmente estamos em guerra.

Estávamos no meio da Praça do Ciclista quando as primeira bomba foi jogada, e ao contrário do que a mídia notícia, não estava acontecendo nada além da manifestação pacífica contra o aumento da tarifa. Aparentemente palavras de ordem gritadas e tocadas por militantes virou motivo para uma verdadeira carnificina.

Quando a primeira bomba foi jogada, estávamos no meio da Praça dos Ciclistas, onde ocorreu a concentração do ato e de onde ele sequer conseguiu sair. De acordo com o que nos avisavam pelo celular, estávamos cercados por todos os lados, a Consolação estava lotada de PM, na Paulista tinha parede de militares, a rebouças também estava bloqueada, ou seja, não tinha pra onde correr.

As bombas vinham da Consolação e no outro sentido uma parede de policiais do choque nos aguardava e durante isso o ambiante era tomado por uma fumaça branca, tóxica, que fazia seu olho e todo o rosto arder, praticamente acabando com a possibilidade de enxergar para onde estava indo e causando uma enorme dificuldade de respirar.

Segurei a mão de um amigo e juntos corremos para um lado tentando fugir das bombas, quase sem enxergar nada eu praticamente andava sem saber pra onde enquanto as bombas eram jogadas em nossa direção. Por um momento tivemos um vislumbre da parede de PMs que travava a Paulista tendo uma brecha e quando corremos para lá nos deparamos com os policiais militares atacando os manifestantes que estavam fugindo das bombas com cacetetes. Essa cena me fez perceber o quão sádica é a policia militar. Recuamos para o outro lado e conseguimos passar por eles sem ser pegos, eu nunca senti tanto medo de ser pega quanto naquele momento.

Saímos correndo pelas ruas da Paulista até chegar em um local em que a gente pudesse respirar, era um misto de cansaço, com falta de ar, com dor nos olhos e raiva por se perceber impotente diante de uma situação como aquela. Enquanto andávamos pelas ruas, nos deparamos com alguns trabalhadores saindo de seus serviços e passando mal pelo cheiro do gás que mesmo de longe incomodava.

Hoje o poema do Carlos Drummond de Andrade passou a ter um significado diferente pra mim, "de mãos dadas" agora significa estar em segurança por que se não fosse a companhia de um amigo hoje durante a repressão eu com certeza seria uma das dezenas de pessoas feridas nesse ato. A sensação de não conseguir respirar, de não enxergar o que está acontecendo, somado com o barulho das bombas e dos gritos da galera foi terrivel, mas olhar para o lado e ver as pessoas se ajudando, ver que eu mesma estava ao lado de um companheiro de lutas, me dava forças para continuar nossa caminhada.

Não há repressão policial que vai nos tirar das ruas, que vai nos impedir de lutar não só contra o aumento da passagem, mas lutar por uma sociedade mais igualitária e justa, livre da repressão policial que todos os dias assassinam jovens negros nas periferias desse país, e que hoje nos mostrou que não medem esforços para reprimir a população.

Quinta feira tem mais ato, e desas vez em vários lugares, não vamos nos render, se a tarifa não baixar continuaremos ocupando as ruas, e quanto mais repressão rolar para nos impedir de lutar por nossos direitos, mais manifestações faremos.

Não aceitaremos a  criminalização dos movimentos sociais que ocupam as ruas e lutam pela revogação do aumento da tarifa. Junho de 2013 já provou que não hpa repressão policial capaz de conter as massas, parece que Alckmin não entendeu nada disso. Espero profundamente que o Prefeito Haddad se pronuncie repudiando toda essa violência e pare a repressão de Geraldo Alckmin, ou será conivente com a tragédia.

Seguiremos ocupando as ruas, por que nossos sonhos e nossas utopias não há bomba que consiga acabar.

Vem pra rua vem  !


Tamires Sampaio