terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014: o ano que minha vida virou de cabeça pra baixo !

"Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre."
Carlos Drummond de Andrade

Está ficando engraçado escrever sobre o meu ano, pois a cada ano que passa, este que passou, se torna o ano mais louco da minha vida. Se 2013 foi o "ano das Revoluções", 2014 foi o ano pra descobrir que absolutamente tudo é possível, basta acreditar e lutar, que mesmo o mais improvável acontece rs

Logo no começo do ano fui para o Rio Grande do Sul, para o Fórum Social Temática, onde eu faria parte de um debate sobre feminismo, representando a PARATODAS, coletivo de jovens estudantes feministas do Brasil que coordeno, foi uma baita viagem, adorei tanto o debate como conhecer esse pedacinho do Sul que é POA.

Me apaixonei cada vez mais pelas religiões de matriz africana, cada texto que leio sobre, cada festa que vou, me encanta mais. Descobri que sou filha de Oyá, uma orixá guerreira, dos ventos e tempestades, que tem a delicadeza de uma borboleta e a força de um búfalo, linda, vermelha haha, só podia ser ela mesmo a minha Orixá. Inclusive 2014 foi um ano regido por Xangô e Oyá, deve ser por isso que foi um ano tão intenso e louco como foi rs

No movimento negro eu vi a minha vida, esse foi um ano em que mais mascaras caíram, um ano em que mais e mais eu percebi a importância da luta antiracista nesse país e no mundo. Logo no inicio do ano em um ato na frente do shopping JK questionamos o consumo e a segregação racial, no "Rolezinho contra o Racismo" escancaramos o racismo que existem nos shoppings, e em espaços de consumo, pois infelizmente retrata a realidade aquela música que diz que nos cursos de segurança, ensinam que as negras levam os produtos em baixo de saia. Não podemos entrar em um mercado que um segurança nos segue, não podemos entrar em um shopping em bando que a policia nos caça. Afinal, o negro existe para o trabalho, consumir é o centro do universo, mas o nosso papel nele é a produção e não a satisfação. O que mais me encantou nesse ato porém, foi o protagonismo das jovens mulheres negras no ato, mais tarde nesse ano eu conheceria o "Feminismo Negro Interseccional", vertente de luta que visa o empoderamento das mulheres negras, mas que sabe que sem o fim de todas as opressões, nenhum oprimido será livre. Por isso interseccionar e lutar contra esse sistema econômico e social que é estruturalmente racista, machista, LGBTfóbico, classista, para que assim emancipemos todxs.

Esse ano mais pesquisas mostraram que os jovens negros morrem aos montes, que o equivalente a dois aviões cheios de jovens negros morrem por semana em nosso país, e isso não choca, isso é natural e naturalizado, vivemos em um Estado genocida, que seja pela mão do policial, seja pelos serviços públicos de péssima qualidade, assassinam os negros e negras. É genocídio pois o Estado corrobora com o que acontece, os dados estão postos, os serviços públicos são denunciados e só pioram, e são os negros que morrem. Parece até que estão concluindo a politica de embranquecimento que começou em nosso país logo após a farsa que foi abolição da escravidão, primeiro escravizam, depois segregam, quando percebem que eles ainda estão aqui resolvem miscigenar e assim tentar acabar com a ideia de racismo, afinal somos um povo miscigenado, depois perseguem nossa cultura, nossa religião e agora nos assassinam, mas como não passamos de números, não incomoda esse extermínio. Marchas denunciando o genocídio do povo negro foram feitas por todo o Brasil, e mais marchas virão em 2015, mais denuncias, até nos EUA um levante foi feito contra os assassinatos de jovens negros do país, e ficou mais claro para o mundo, que o racismo existe, que a democracia racial é só um mito, e que todos nós negrxs não conseguimos respirar e continuaremos a lutar até o fim. Meu TGI será sobre esse tema, violência policial e o genocídio da juventude negra, espero que consiga encontrar em meu curso e em minha futura profissão uma forma de acabar com isso e somar mais ainda a luta do movimento negro, que nesse ano me mostrou ser não apenas uma militância, e sim minha vida e a de todos os negros.

Mesmo com todos os atos contra, teve Copa do Mundo no Brasil sim, e que Copa MARAVILHOSA, teve gol demais, teve jogos inesperados, teve o eterno 7x1 haha, teve uma balada numa quinta feira na Augusta que vai ficar pra história, um grande amigo americano e outro nigeriano que e um bar em que numa pergunta decisiva que a Laurinha fez se disseram de esquerda haha e teve Fan Fest, teve Rio de Janeiro, teve Cristo Redentor, Copacabana, teve até Ilu Obá de Min, foi com certeza um dos melhores momentos do ano, mesmo sem a vitória pro Brasil, ganhamos nos rolês, nas novas amizades, na alegria que esse evento mundial fez aflorar aqui, e mostrou pro mundo inteiro que o Brasil é foda, beijosnoombro. Falando em beijo no ombro eu conheci a Valesca depois de um show na virada Cultural, falando em virada cultural esse foi o ano que mais fui em shows na minha vida: Racionais, BA Kimbuta, Ellen Oleria, GOG, dom Paulinho, Dexter, Marechal, dentre outros foram alguns dos artistas que tive a oportunidade de ver, muita festa, shows, artistas, amizades e loucuras.

Não posso deixar de falar no meu estágio, na assessoria jurídica da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, lugar onde aprendi um pouco mais sobre como realmente funciona a administração pública e pude acompanhar de perto as politicas públicas para combate ao racismo. Fora que se eu não tivesse o supervisor mais foda do mundo eu não conseguiria fazer toda essa minha militância hahaha

2014 foi ano de eleição e ano de Congresso, Encontros e Seminários do PT e da juventude, desde Camping Digital, onde eu finalmente vi um show do Racionais que vai ficar pra sempre na minha mente e participei de debates sobre a internet e sobre os drones que vão dominar o mundo haha, seminário de jovens mulheres do PT junto ao encontro nacional das mulheres do PT, o Congresso em que a gente confirmou a candidatura da Dilma pra reeleição e que mais tarde daria em sua reeleição, várias atividades que me mostraram cada vez mais o quanto a gente ainda precisa fazer pra mudar, e  quanto falta de autocritica pra alguns dirigentes... Outra coisa que esse ano mostrou, confirmado os atos do ano passado, é que a juventude pede passagem, está na hora de uma urgente renovação nos movimentos sociais e no partido, se a juventude não se empoderar e não tomarem os espaços os movimentos e os partidos tendem ao fracasso, e mais, se os negros, mulheres, lgbts, não ocuparem esses espaços, a luta contra essas opressões ficarão de lado, por que o protagonismo nessas lutas se não for dxs oprimidxs não serão legítimos e não contemplarão os movimentos. Mas mesmo com todos os defeitos e erros, temos muitos acertos e muita transformação, e por isso estou aqui e continuo junto com esses milhares de vermelhos que querem um Brasil melhor.

Teve também o encontro nacional da Juventude da CONEN, que é a entidade que faço parte no movimento negro. Foi um seminário muito importante, com grandes formulações e que deu a oportunidade se conhecer uma Juventude negra de vários estados do país que estão preparadas para a luta do combate ao racismo no Brasil, nesse encontro fui escolhida para ser a coordenadora estadual da JCONEN de SP, tarefa que aceitei com muito orgulho e que espero poder articular muito mais a juventude negra no estado.

2014 foi também um ano de uma grande perda, perdi um irmão, um grande amigo, alguém que conheci antes de conhecer, que mesmo discordando de algumas coisas sempre me apoiou. Leonardo se foi em um acidente de carro, até hoje lembro de quando recebi a notícia, até hoje quando lembro me falta ar por não conseguir entender como alguém que tinha tudo para vencer e se dar muito bem na vida é levado assim. Mais de seis meses se passaram e eu não consigo entender o por que teve que ser assim. Perdi um irmão e ganhei um anjo, tenho certeza que ele olha por mim e por todos que ele deixou em terra, um dia ele me disse que era como o elefantinho da música que incomoda muita gente, sigo sendo uma manada, na luta, sempre. Muito obrigada por tudo Léo, você faz muita falta, principalmente naquela sala.

Um companheiro de luta também se foi, agora no final do ano, Caio, que teve a vida ceifada por uma janela. Poucas vezes tive a chance de falar com ele, mas o pouco que conversamos pude perceber a gana por transformação que ele tinha, a garra pra luta, a SF perdeu um grande aluno, os movimentos sociais um grande militante, nosso grupo um companheiro. Ele foi mais uma vitima do racismo e da bifobia, é muito difícil ser quando você precisa brigar pra se auto afirmar. Continuamos aqui na luta, para que nenhuma outra pessoa seja levada por alguma opressão.

Em 2014 a Frente Perspectiva cresceu, se expandiu, fez mais intervenções, e por meio da Chapa Catarse, concorreu ao Centro Acadêmico João Mendes Jr, e em uma eleição história do CA se elegeu e entrou pra história, pois a partir do dia 9 de setembro de 2014, o CAJMJr teria uma "presidente" prounista, da periferia, mulher negra, pela primeira vez em 60 anos de existência, por acaso essa mulher sou eu, e isso fez a minha vida virar de cabeca pra baixo. A Chapa Catarse fez uma campanha sensacional, ganhei amigos, sorrisos, cansaço, nervosismo, mas tudo valeu a pena, pois o nosso esforço coletivo, fez a gente ganhar e assim tornar possível a nossa ideia de fazer uma catarse no movimento estudantil mackenzista. Esta esta sendo uma experiência transformadora na minha vida, os elogios e as críticas, nossas ações, nossos eventos, as notas de repúdio haha, enfim tudo isso, feito coletivamente, as vezes mais as vezes menos, mas sempre com o norte da tão aclamada horizontalidade. Ainda tem mais coisas pra fazer, ainda tem alguns meses de gestão, então não da pra falar da experiência como um todo, mas até aqui, mesmo a parte ruim foi boa, e mesmo todo cansaço vale a pena. Eu não tinha ideia que movimento estudantil de base pudesse ser tão extasiante, fico muito feliz em ter a oportunidade de participar disso com as pessoas que estão ao meu lado. Bia Narita, Luiza, Melissa, Luiz e Roque ou o Luiz Roque, Saul e Felipe, vocês e mais toda a Catarse e a Frente Perspectiva fizeram desse um ano inesquecível, muito obrigada por tudo que a gente já passou e pelo que ainda vamos passar haha O que antes foi QG do CCC agora tem um bando de marxista, feminazi, antiracista e gayzista  haha e isso é revolucionário :)

Estar no CA, me fez perceber que eu sempre maquiei muito o que é o Mackenzie e como esse lugar ao mesmo tempo acolhe e excluí. Parece bobagem, mas é violento estar nesse lugar, que historicamente não foi feito pra você, que mesmo sendo cristão, é elitista, pois a universidade é excludente para quem não se adequá ao padrão de uma sociedade racista como é a nossa. Ser umx negrx na universidade significa resistir a isso tudo, e no meio de um momento muito difícil surge no Mackenzie a AfroMack, um coletivo de negras e negros do Mackenzie, uma das coisas que mais me alegrou esse ano, que me deu força, que me mostrou que não estava sozinha e que me mostrou que a resistência quando em união com seus iguais é poderosa e empodera.

2014 foi um ano de eleições difíceis, bem apertadas no Brasil inteiro, tivemos vitórias e também derrotas, ganhamos mais uma vez a presidência e a cada anúncio sobre esse novo mandato eu fico mais apreensiva com o que nos espera. Votei na Dilma, fiz campanha pra ela e não me arrependo. Sei que esse congresso eleito, por ser o mais conservador da história, mostra que a mobilização social é extremamente necessária para garantir avanços. Mas espero que ela não se esqueça do segundo turno e do que ele significou e representou, e de que não foi esse congresso eleito que a colocou de novo no Palácio do Planalto.

Esse ano participei de reuniões decisivas e fantasticas analises de conjuntura ao lado de quem eu jamais fosse imaginar, subi no palco com a presidenta e com o eterno presidente, fui em atos, palestras, falei, gritei, mediei, briguei quando precisou e chorei quando tudo parecia que não ia dar certo. Mas deu até agora e continuará dando...

Fui para um seminário sobre o Juventude Negra: homicídios e cárcere, organizado pelo Ministério da Justiça. Seminário fantástico em que aprendi muito e ao lado de pessoas fantásticas, grades doutores e especialistas em suas áreas, com certeza um dos momentos marcantes do ano.

Duas coisas que me emocionaram muito nesse ano foi estar na lista de mulheres que influenciaram em 2014 da Talk Olga e agora no final do ano do Blogueiras Negras. Ver meu nome ao lando de tanta mulher de luta, que inclusive são referências para a minha militância não tem preço, é muito emocionante. Espero cada vez mais poder levar o combate ao machismo, ao racismo e ao classismo, sempre na linha do feminismo negro interseccional, para cada vez mais libertar as mulheres e negrxs das amarras que os prendem nesse sociedade. Uma coisa que até agora eu não consigo acreditar foi a homenagem que recebi na Câmara Municipal de São Paulo, por ser uma jovem negra protagonista da luta de combate ao racismo em minha cidade *-*

Em 2014 vivi, sorri, chorei, amei, vi o mar e me perdi mas ondas, voei, viajei, dancei, lutei, enfim... Foi um ano intenso, se tem uma palavra que pode resumir esse ano é intensidade. Conquistamos algumas reinvindicações históricas, mas em 2015 tem muita luta por vir, já tem até ato marcado hahaha o que mostra que esse ano promete. E como todos os anos são loucos, 2015 tem tudo pra ser melhor e maior.

Não da pra resumir 365 dias em um texto, ainda mais um ano como foi esse, então muita coisa ta faltando, mas todos os momentos foram especiais e toda luta foi transformadora.

Agradeço a todas as divindades, orixás, anjos, mestres, guias, Deuses, o Sol e a Lua, e tudo mais por todas as conquistas desse ano que agora acaba e por tudo de novo que o ano novo irá revelar. Agradeço a minha mãe, mulher guerreira, de luta, que me fez ser o que sou hoje, minha maior referência e minha inspiração. Agradeço também aos meus mestres que me ajudaram a chegar onde estou e que me ajudam a enfrentar qualquer barreira, os que além de dirigentes ou referências ou professores são grandes amigos que espero levar pra vida inteira.

Estou nesse momento que escrevo embarcando em uma viagem pra Brasília, para participar da posse desse segundo mandato da Dilma que mal começou e já está gerando muita polêmica. Mas vamos lá falar com minha querida amiga pra dialogar mais com os movimentos sociais nesses 4 anos, senão o governo não se sustenta.

Pode vir 2015, vem com tudo que de cabeça pra baixo a gente percebe que estava certo aquele que disse que nada é impossível de mudar :)



Tamires Sampaio