Esse título pode parecer muito forte, para alguns um exagero, mas infelizmente trata-se da realidade de nosso país. O Brasil em seus mais de 500 anos, possuí mais da metade de sua história, a escravidão como algo legal e primordial para o modo de produção. São 388 anos de violência, humilhação, tortura, preconceito e descaso com um povo, uma raça, que foi tirada de seu continente, para aqui servir e ser explorado, da forma mais brutal que se pode imaginar.
E pior, ao assinar a tão aclamada Abolição em 1888, conquistada por muita luta e muitas mortes, não houve uma reparação, não houve sequer uma tentativa de inserção do negro na sociedade que até então havia sido formada por seu sangue e suor. E apenas assinar um papel não iria apagar anos e anos de exclusão social, não iria por um passo de mágica tornar todos iguais... e essa falta de uma politica concreta de uma reparação se reflete até hoje no dia a dia das periferias.
Nossas crianças na Casa grande, eram usadas como brinquedos para os filhos da Sinhá, eram como objetos, jogados, largados, pisados, mal tratados, isso quando não eram colocados para trabalhar de alguma desde cedo, afinal as mãos finas e pequenas das crianças podiam fazer trabalhos que os mais velhos já não fariam tão bem. Hoje em dia não somos mais objetos, com a igualdade formal viramos sujeitos de direito, mas a exclusão social persiste, agora o "filho da Sinhá" quando criança brinca com os vários presentes que ganha, nos parquinhos, com os tablets, se entretêm com a televisão... já nos semáforos, nos vagões do trem, nas ruas, nós vemos jovens pedindo dinheiro, vendendo balas, limpando vidros, com roupas sujas, com pés descalços, com olhar de futuro perdido. Muitas dessas crianças vão para o mundo do crime, muitas dessas crianças morrem por usar drogas, são violentadas em casa, perdem o que é de mais precioso na sua infância: a capacidade de sonhar, pois não possuem tempo para isso.
Enquanto alguns no dia 12 de outubro, comemoram o dia das crianças com o carrinho novo, com a boneca barbie, no shopping, no cinema, na praia... outros comemoram no trabalho informal, na febem, nas estradas da prostituição, nos faróis vendendo bala, nas ruas brincando com o vizinho, em casa cuidando do filho (quando na realidade deveria estar sendo cuidado por ainda ser uma criança), nas ruas sem casa, sem pai ou mãe, na roça com um boneco feito de uma espiga de milho, nas vielas sendo mortos pelo Estado, no meio do nada sendo subjulgado. No dia das crianças, me vem em mente o desespero de saber que tem muito jovem sem comida pra comer, sem um teto pra morar, sem uma roupa limpa pra usar. Essa juventude tem que ser ajudada, tem que ser enxergada, foram tantos anos de uma exclusão social, que hoje em dia a sua dor passa a ser uma coisa banal.
Não existe dia das crianças para a juventude preta, pobre e da periferia, aqui o trabalho deles é que traz o pão de cada dia.
Tamires Sampaio


Nenhum comentário:
Postar um comentário