domingo, 4 de maio de 2014

#NãoSomosMacacos



No domingo (27/04), presenciamos mais uma vez um caso de racismo no campo de futebol, em um jogo do barcelona com Villareal, quando o jogador Daniel Alves se preparava para cobrar escanteio, atiraram uma banana no campo em direção a ele, claramente comparando o jogador a macacos. Para surpresa de todos, o jogador respondeu ao ato racista com maestria, pegando a banana e comendo no meio do campo, ignorando os torcedores e silenciando os que estavam dentro e fora do campo.

Vivemos em uma sociedade estruturalmente racista e isso se reflete em todos os espaços, inclusive nos esportes. Infelizmente já se tornou comum atos racistas como esse, em que torcedores jogam bananas nos jogadores negros, ou até mesmo jogadores e técnicos de time adversários chamarem os negros em campo de macacos. Casos como o de Tinga, Arouca, Marcelo e Graffiti ecoam nesse de Daniel Alves, o que mostra a necessidade de discutir a relação dos negros e negras com o esporte.

Logo depois o ocorrido, o jogador Neymar, que a pouco tempo declarou que nunca sofreu racismo pois "não é negro", postou uma foto em uma rede social com seu filho abraçando uma banana de pelúcia e ele comendo uma banana, acompanhado com a tag #somostodosmacacos, em uma tentativa incoerente de se combater o racismo. Em questão de horas milhares de pessoas aderiram a campanha, dentre elas artistas, cantores, times de futebol e políticos, todos em uma histeria coletiva em que acreditavam que o uso de uma tag era o suficiente para combater o racismo e se solidarizar com os jogadores. 

No dia seguinte camisetas com a tag já estavam sendo vendidas, e descobrimos que essa campanha foi capitalizada e iniciada por uma empresa de marketing que deu a ideia ao jogador Neymar e que apenas visava lucrar com essa “luta antirracista”. Um dos artistas que aderiram a campanha, foi Luciano Hulk, e a empresa dele que no dia seguinte começou a vender as camisetas, curiosamente com apenas modelos brancos na divulgação, o que nos mostra a incoerência, o racismo e a falta de caráter de uma pessoa que além de promover uma campanha que visa combater o racismo sendo racista, utiliza disso para gerar lucro para sua empresa.

A palavra macaco é usada historicamente para ofender os negros. A comparação com o primata busca passar a ideia de que o negro não evolui geneticamente como as outras raças, quer compara-lo a um animal, uma coisa, e que por isso pode ser insultado, agredido e até assassinado, inclusive pelo Estado por meio da Policia Militar. Não é atoa que são os jovens negros que a policia mais mata, que as mulheres negras as que sofrem mais violência, e que toda a cultura negra seja criminalizada, isso é resultado da institucionalização do racismo em nossa sociedade que é legitimada quando utilizam termos como esse. 

A atitude do Daniel foi acertada para o momento, fez com que o racista escorregasse na casca de banana e quebrasse a cara, foi um choque pois o agredido geralmente não reage as agressões e isso nos mostra que nossa luta se torna a cada dia mais urgente e necessária. Mas não podemos deixar que campanhas como estas se multipliquem, pois utilizar termos que nos agride historicamente, que causa grande problema a auto estima de nossas crianças e jovens negros, e que nos remete a inferioridade, é um grande retrocesso as lutas do movimento negro, pois irá legitimar os racistas a nos chamarem de macacos com o aval dessa campanha.

Outra questão complicada que deve ser ponderada é que a ideia de "somos todos iguais" em uma campanha que visa combater o racismo é extremamente perigosa, pois abre as portas para que as ações afirmativas como um todo sejam questionadas, pois se somos todos iguais para que as cotas? (por exemplo). Temos que deixar escuro que não somos todos iguais, é o nosso povo que foi escravizado durante séculos nesses país, é a nossa juventude que morre todos os dias, cada vez mais, são nossas mulheres que são exploradas sexualmente e condenadas esteticamente. 

Você quer realmente combater o racismo? Então entre na luta pela aprovação do PL 4471, da PEC 51, lute por cotas nas universidades públicas e nos serviços públicos, lute contra o genocídio da juventude negra, respeite nossa cultura e nossa religião, lute contra esse padrão de beleza europeu, enfim, uma luta verdadeiramente transformadora se dá nas ruas, no dia-a-dia e não em uma foto com tags nas redes sociais.


Tamires Sampaio

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