domingo, 26 de agosto de 2012

A HISTÓRIA QUE O BRASIL NÃO CONTOU







Pouco me ensinaram a escola e a sociedade sobre minha verdadeira história.
Sobre minhas raízes, realidade.
Ao me falarem da escravidão ressaltaram o poder dos nobres e a submissão do negro.
Falaram-me das correntes, do tronco, da chibata e dos porões...
Não me falaram da resistência, das lutas, da organização.
Deixaram margem para que eu pensasse que o negro era um idiota, que aceitava tudo calado.

Ao me falarem das plantações de café, dos canaviais, das minas e dos casarões, não me falaram da sua força, da sua inteligência, da sua capacidade de fazer um país com a força de seus braços.

Chegaram a afirmar que o negro era preguiçoso. Só trabalhava para não apanhar.

Ao me falarem de sua identidade, contaram-me que eles chegavam aos montes, em navios negreiros,
Marcados a ferro como animais. Vendidos em feiras como mercadorias.
Não me falaram que o negro tinha alma, sangue, raízes.

Ao me falarem da sua fé, diziam apenas que eram supersticiosos, feiticeiros, cultuadores de Deuses pagãos.
Não me falaram de sua religião, de sua fidelidade a um Deus vivo, cultuado com danças, cantos, gestos e rituais.
Não me falaram da alegria do negro ante o reconhecimento, que podiam contar com o senhor de todas as histórias.

Ao me falarem da beleza, definiram-na assim: ter traços finos, cabelos lisos e pele clara era ser bonito.
Ter traços fortes, cabelos crespos e pele escura era ser feio.
Não me falaram que o negro tem seu cheiro, sua característica.
Sua ginga, um olhar, um brilho especial.

Que o negro cabeça erguida, encanta,. Que o negro é lindo!

Ao me falarem da sua cultura... Aí, eu tenho vontade de chorar!
Nada falaram.
Fizeram-me pensar que o negro era uma folha atirada ao vento.
Não me falaram que o negro tem um sangue diferente. Sangue quente, nobre, forte e bonito
O regente de seu corpo, de sua cultura. Uma energia que enobrece sua arte.

Que faz vibrar.

Que faz cantar.

Que faz dançar.

Que faz surgir sons especiais dos objetos simples e banais.

Falaram-me muito da Princesa Isabel.
Pouco, ou nada, de Zumbi dos Palmares.

Fizeram-me sentir tristeza por ser negra.
Fizeram-me sentir vergonha por ser negra.

Em meu corpo moreno, mulato, pardo, existe a pigmentação que define minha origem,
Em minha alma vibrante, meu espírito silencioso.
Em minhas veias vigorosas, corre o sangue dos meus ancestrais.

Sangue africano.

Sangue baiano.

Sangue negro.

Sangue mineiro.

A pigmentação que define a minha raça!

AXÉ!


Autora - Cida Araújo (Do livro - Paralelos sociais)
www.Cidaaraujo2007poetisa.blogspot.com

4 comentários:

  1. Recomendo a leitura do capítulo 15 do livro "A ralé brasileira:quem é e como vive" de Jessé Souza(o capítulo fala sobre racismo).

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  2. Obrigada pela indicação Luciano, vou dar uma olhada...

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  3. Adorei cara, sensacional !
    Reflete muito bem a realidade brasileira vivida por nós.
    Muito boom !!

    Temos que mudar isso !
    beeijão !

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    1. Sim Diego, eu adorei esse texto exatamente por isso :)
      Temos de lutar por uma formação histórica pautada na realidade e sem tanto preconceitos...

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